sábado, 25 de março de 2017

I Timóteo - Um Resumo Expositivo - H. Smith - Parte III

III. A ORDEM DA CASA DE DEUS

(Capítulos II e III)

Nesta divisão da Epístola, o apóstolo demonstra o caráter da Casa de Deus (2:1-4); o testemunho da graça de Deus que deve fluir da Casa (2:5-7); a conduta própria de homens e mulheres que formam a Casa (2:8-15); as qualificações necessárias a quem exerce ofício na Casa (3:1-13); e finalmente o mistério da piedade (3:14-16).

(a) A Casa de Deus, uma casa de oração para todas as nações.

(Capítulo I vs.1-4). (Is. 16:7; Mc. 11:17)

(v.1) A Casa de Deus é caracterizada como um lugar de oração. As petições que sobem a Deus da Sua Casa devem ser marcadas por deprecação ou súplicas sinceras por uma necessidade especial surgida em circunstâncias particulares; por meio de “orações” as quais expressam desejos gerais apropriados para todos os tempos; pelas “intercessões” implicando em que os crentes estejam em proximidade de Deus podendo pedir em nome dos outros; e finalmente, por “ações de graça” o que fala de um coração consciente da bondade de Deus, que tem prazer em responder as orações do Seu povo.

Na Epístola aos Efésios, que apresenta a verdade da Igreja no seu chamamento celestial, somos exortados a orar com súplicas por “todos os santos” (Ef. 6:18).  Aqui, onde a Igreja é vista como um vaso de testemunho da graça de Deus, temos de orar com súplicas “por todos os homens”.

(v. 2) Somos especialmente chamados a orar por reis e todos que têm autoridade – aqueles que estão em posição de influenciar o mundo para o bem ou para o mal. Não é apenas “para o rei” ou “nosso rei” que temos de orar, mas “pelos reis”. Isto presume que temos consciência da nossa ligação com o povo de Deus em todo o mundo como formando parte da Casa de Deus, e a verdadeira posição da Igreja estando em santa separação do mundo, não tomando parte em políticas ou governos. No mundo, mas não do mundo, a Igreja tem o alto privilégio de orar, interceder e dar graças em nome daqueles que não oram por si mesmos.

O Apóstolo dá duas razões para as orações por todos os homens. Primeiro é trazido o orar pelos reis e todos em autoridade, tendo em vista o povo de Deus em todo o mundo. Temos de buscar que a soberana bondade de Deus possa então controlar a regras deste mundo para que Seu povo possa levar "uma vida quieta e sossegada em toda a piedade e honestidade”. É evidentemente a mente de Deus que Seu povo pudesse, atravessando este mundo hostil, levar uma vida quieta, não afirmando a si mesmos como se fossem cidadãos deste mundo, em tranquilidade, abstendo-se em tomar parte das disputas do mundo, em “piedade” que reconhece Deus em todas as circunstâncias da vida, e em prática seriedade diante dos homens.  No velho testamento o profeta Jeremias enviou uma carta ao povo cativo na Babilônia, exortando-os a buscarem a paz da cidade na qual eles haviam sido presos em cativeiros, orando ao Senhor por isso: porque diz o profeta, “na sua paz vós tereis paz” (Jr. 29:7). No mesmo espírito temos de buscar a paz do mundo, a fim de que o povo de Deus tenha paz.

(vs.3,4) Então uma segunda razão é dada para as orações do povo de Deus em nome de todos os homens. Orar por todos os homens é “bom e agradável, diante de Deus, nosso Salvador; que quer que todos os homens se salvem”.  Não temos de orar em vista apenas do bem de todos os santos, mas também em vista da benção de todos os homens.

O mundo pode algumas vezes perseguir o povo de Deus e procurar desafogar sobre eles todo o ódio do seu coração para com Deus. A menos que andemos em julgamento próprio, este tratamento estimularia a carne para ressentimento e retaliação. Aqui nós aprendemos que é “bom e agradável diante de Deus” agir e sentir com respeito a todos os homens, como Deus mesmo faz, em amor e graça. Então temos de orar “por todos os homens”, não apenas por aqueles que governam bem, mas também por aqueles que usam o povo de Deus de maneira caluniosa (Lc. 6:28). Temos de orar, não para que se faça julgamento em retribuição para vencer os perseguidores do povo de Deus, mas para que na soberana graça eles possam ser salvos. 

(b) A Casa de Deus, uma testemunha da graça de Deus (vs.5-7)

A Casa de Deus não é apenas para ser um lugar de onde as orações ascendem a Deus, mas também um lugar do qual um testemunho flui para o homem. No tempo devido Deus vai tratar em juízo com o perverso e mesmo agora pode tratar em governo  com aqueles que se colocam em oposição a graça de Deus e os ministros da Sua graça, como na matança de Herodes e a cegueira que veio sobre Elimas (Atos 12:23; 13:6-11). Além disso, Deus pode, em ocasiões solenes, lidar em juízo governamental com aqueles que formam a Casa de Deus, para a manutenção da santidade da Sua casa, como ocorrido no terrível juízo que alcançou Ananias e Safira; e mais tarde, o trato governamental pelo qual alguns na Assembleia dos Coríntios foram levados em juízo (morreram) (Atos 5:1-10; 1 Co. 11:30-32). Tais casos, no entanto, são resultado do trato direto de Deus. A Casa de Deus como tal, deve ser um testemunho de Deus como um Deus Salvador, Que deseja que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade.

A “vontade” de Deus nesta passagem não tem referência aos conselhos de Deus os quais serão certamente cumpridos na maioria. Ela expressa a disposição de Deus para com todos. Deus apresenta-se a Si mesmo como um Deus Salvador que está desejoso que todo homem possa ser salvo. Mas, se os homens serão salvos, isso só pode ser por meio da fé que reconhece “a verdade”. Sobre essa “verdade” a Casa de Deus é a “coluna e firmeza” (3:15). Enquanto a Assembleia estiver na terra, ela é a testemunha e suporte da verdade. Quando a Igreja for arrebatada, os homens cairão de uma vez na apostasia e serão entregues a um forte engano.

(v.5) Duas grandes verdades são trazidas diante de nós como o terreno em que Deus lida com os homens em soberana graça. Primeiro, há um só Deus; segundo, há um só Mediador.

Que há apenas um Deus foi completamente declarado antes de Cristo vir. A unidade de Deus foi o grande fundamento da verdade do Velho Testamento. Era o grande testemunho a Israel, como lemos: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt. 6:4). Era o grande testemunho que tinha de fluir às nações de Israel como lemos: “Todas as nações se congreguem, e os povos se reúnam... Apresentem as suas testemunhas, para que se justifiquem, e se ouça, e se diga: Verdade é. Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor, e meu servo, a quem escolhi; para que o saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo, e que antes de mim Deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá. Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há Salvador” (Is. 43:9-11).

A cristandade enquanto mantendo totalmente a grande verdade de que há um só Deus, apresenta também a verdade igualmente importante de que há um só Mediador entre Deus e os homens.  Esta última verdade é a verdade característica do Cristianismo.

Três grandes verdades são apresentadas caracterizando o Mediador. Primeiro, Ele é um.  Se Deus é um, é igualmente importante lembrar-se da unidade do Mediador. Há um só Mediador e não há outro. O papado e outros sistemas religiosos corruptos da Cristandade negaram esta grande verdade e depreciaram  a glória de um só Mediador, estabelecendo Maria e outros homens e mulheres canonizados como mediadores.

Segundo, o Único Mediador é um Homem, a fim de que Deus possa ser conhecido pelos homens. Os homens não podem ascender a Deus; mas Deus em Seu amor, pode descer ao homem. Alguém disse: “Ele desceu ao mais profundo abismo a fim de que não houvesse ninguém, nem mesmo o mais miserável, que não pudesse sentir que Deus em sua bondade estava perto dele – que desceu até ele – Seu amor encontrando ocasião na miséria; e que não havia nenhuma necessidade em que Ele não pudesse estar presente e a qual Ele não  pudesse satisfazer ” (J.N.D.).

(vs.6,7) Terceiro, este Mediador deu-Se a Si mesmo como resgate por todos. Se Deus tem de ser proclamado como um Deus Salvador, que quer que todos os homens se salvem, Sua santidade deve ser vindicada e Sua glória mantida. Isto tem sido perfeitamente cumprido pela obra propiciatória de Cristo. A majestade de Deus, justiça, amor, verdade, e tudo que Ele é, tem sido  glorificado na obra feita por Cristo. Ele é a propiciação para todo o mundo. Tudo que era necessário foi feito. Seu sangue está disponível para o mais vil, seja quem for, uma vez que o evangelho ao mundo diz: “quem quiser, venha”. Neste aspecto podemos dizer que Cristo morreu por todos, deu-Se a Si mesmo como resgate por todos; um sacrifício disponível para o pecado, para quem quer que venha.

Essas são as grandes verdades a serem testificadas no devido tempo – a graça de Deus proclamando perdão e salvação a todos no terreno da obra de Cristo, que se deu a Si mesmo como resgate por todos. Quando Cristo ascendeu para a glória, e o Espírito Santo desceu à terra para habitar no meio dos crentes, assim formando-os a Casa de Deus, o tempo devido veio. Daquela Casa o testemunho devia fluir, o Apóstolo sendo usado por Deus para pregar a graça e assim abrir a porta da fé aos Gentios (Atos 14:27). Ele pode então falar de si mesmo como um pregador, um apóstolo, e um mestre dos Gentios na fé e na verdade.

(c) A conduta adequada para os  homens e mulheres que formam a Casa

(vs.8-15) Vimos na parte inicial do capítulo que a casa de Deus é o lugar de oração “para todos os homens” (v.1); o testemunho da disposição de Deus em graça para com “todos os homens” (v.4); e o testemunho de quem deu-se a Si mesmo como resgate “por todos” (v.6).

Se tal é o grande propósito da Casa de Deus, segue-se que nada deve ser permitido na Casa de Deus que arruíne este testemunho tanto da parte dos homens como das mulheres que formam a Casa. Então o Apóstolo passa a dar instruções detalhadas sobre o comportamento de cada classe. Este testemunho da graça de Deus não contempla um número de crentes, interessados em um testemunho particular, unindo-se para um serviço. Não é um bando de evangelistas entregando-se ao trabalho do evangelho ou serviço missionário. Ele apresenta todos os santos partilhando de um interesse comum no testemunho que flui da Casa de Deus.

(v.8) Em primeiro lugar, o Apóstolo fala dos homens em contraste com as mulheres. Os homens na Casa de Deus devem ser marcados pela oração. O Apóstolo está falando de oração pública e em tais ocasiões, a atribuição para orar é restrita aos homens. Além disso, a instrução não contém nenhum pensamento de uma classe oficial dirigindo a oração. Orar em público não está limitado aos anciãos, ou a homens com dom, porque orar nunca é tratado na Escritura como uma questão de dom. São os homens quem oram e a única restrição é que uma condição moral correta deve ser mantida. Aqueles que dirigem oração em público devem ser marcados pela santidade e suas orações devem ser sem ira nem contenda. O homem que está consciente de um mal não julgado em sua vida, não está em condições de orar. Além disso, a oração é para ser sem ira. Esta é uma exortação que condena totalmente o uso da oração para fazer ataques velados a outros. Por trás dessas orações sempre há ira ou malícia. Além disso, a oração é para ser em simplicidade da fé e não com um vão discurso humano.

(v.9) As mulheres devem ser marcadas por “comportamento e vestido decentes”. Esta tradução claramente indica que não somente no vestir, mas no seu comportamento em geral as mulheres devem ser marcadas pela modéstia que evita toda impropriedade; e “discrição” que faz com que cuide nas suas palavras e maneiras. Elas devem se guardar de usar o cabelo que Deus deu para glória da mulher, como uma expressão da vaidade natural do coração humano. As mulheres não devem procurar chamar atenção sobre si mesmas, ataviando-se com “ouro ou pérolas ou vestidos dispendiosos”.  Novamente, as mulheres fazem bem ao se lembrar de que devem obedecer a essa passagem da Escritura e não perder esse espírito por se apegar a algo insignificante, desse modo atraindo atenção sobre si mesmas.

A mulher professando o temor de Deus será marcada não pela simulação de superior espiritualidade, mas por “boas obras”. Seu lugar no Cristianismo é gracioso e bonito: é encontrado naquelas “boas obras”, muitas das quais podem somente ser feitas por uma mulher.

Vemos nos evangelhos como as mulheres ministraram a Cristo com aquilo que possuíam (Lc. 8:3). Maria fez uma boa obra ao Senhor quando ungiu Sua cabeça com o precioso unguento (Mt. 26:7-10). Dorcas fez uma boa obra quando fez roupas aos pobres (Atos 9:39). Maria, a mãe de João Marcos abriu sua casa para muitos se reunirem em oração (Atos 12:12). Lídia, a quem o Senhor abriu o coração, fez uma boa obra quando abriu sua casa aos servos do Senhor (Atos 16:14-15). Priscila fez uma boa obra quando, com seu marido, ajudou Apolo a conhecer “mais precisamente o caminho de Deus” (Atos 18:26). Febe, de Cencréia, foi “ajudadora de muitos”.  Outras partes da Escritura nos relatam que mulheres piedosas podem lavar os pés dos santos, aliviar o aflito, educar crianças e guiar a casa. Aqui lemos que em público a mulher deve aprender em silêncio. Ela não deve usurpar a autoridade sobre o homem.

O Apóstolo dá duas razões para a sujeição da mulher ao homem. Em primeiro, Adão tem lugar proeminente, visto que foi formado primeiro, depois Eva. A segunda razão é que Adão não foi enganado; a mulher foi. Num certo sentido, Adão foi pior que a mulher porque pecou conscientemente. Apesar disso, a verdade reclamada pelo Apóstolo é que a mulher mostrou sua fraqueza naquilo que ela foi enganada. Adão realmente deveria ter mantido sua autoridade e levado a mulher em obediência. Ela, na fraqueza, foi enganada, usurpando o lugar da autoridade e levou o homem à desobediência. A mulher cristã reconhece isso e é cuidadosa em manter o lugar de sujeição e silêncio.

(v.15) Eva sofreu por sua transgressão, mas a mulher Cristã encontrará misericórdia de Deus abundando sobre o juízo governamental, se o homem casado e a mulher continuam em fé e amor e santidade, com discrição. Como vimos antes, a continuidade na sã doutrina é largamente dependente de uma correta condição moral (1:5-6); assim vemos agora que misericórdia temporal está conectada com um estado espiritual correto.

(d) A supervisão na Casa de Deus (3:1-13)

(v.1) O Apóstolo falou da posição relativa dos homens e mulheres e a conduta adequada a eles na Casa de Deus. Isto prepara o caminho para a instrução quanto à vigilância na Igreja de Deus. O Apóstolo diz, “Se alguém deseja exercer vigilância, deseja um bom trabalho” (N.Tn.).

No discurso do Apóstolo aos anciãos de Éfeso, três coisas são trazidas diante de nós caracterizando a supervisão. Primeiro, os bispos que supervisionam devem ser vigilantes em relação a si mesmos e a todo o rebanho. Eles devem buscar que seu próprio caminhar e o caminhar do povo de Deus, possam ser dignos do Senhor. Segundo, eles têm de “alimentar a Igreja de Deus”. Eles pensam, não apenas no andar prático do povo de Deus, mas devem buscar o bem-estar das suas almas, para que possam entrar em seus privilégios cristãos e fazer progressos da alma na verdade. Terceiro, eles devem “zelar” pelo rebanho para que ele possa ser preservado dos ataques do inimigo de fora, assim como das corrupções que possam surgir dentro do  círculo cristão por meio de homens perversos que desviam almas do Senhor para si mesmos (Atos 20:28-31).

Tal era o trabalho da supervisão, e o Apóstolo fala disso como “um bom trabalho”. Há o testemunho da graça de Deus que deve fluir da Casa de Deus, e o Apóstolo já havia falado desse “bom e aceitável diante de Deus”. Existe também o cuidado para com aqueles que compõem a Casa de Deus, que seu andar deve estar adequado à Casa, e este cuidado para com as  almas é também “um bom trabalho”.

É importante lembrar que o Apóstolo não está falando de “dons”, mas de ofício local para o cuidado da Assembleia. A cristandade tem confundido dons com ofícios ou cargos. Na Escritura eles são bem distintos. Os dons são dados pelo Cabeça que ascendeu e são “postos” na Igreja (Ef.4:8-11; 1 Co.12:28). O exercício do dom não pode então ser limitado à assembleia local. O ofício de bispo que supervisiona é puramente local.

Além disso, não há nada nas instruções para ordenação de indivíduos para esses ofícios. Timóteo e Tito podem ter sido autorizados pelo Apóstolo para ordenar (ou estabelecer) anciãos (Tt.1:5), mas não há instruções para que anciãos indiquem anciãos ou a Assembleia para escolher anciãos.

O fato de que esses servos foram autorizados pelo Apóstolo para estabelecer anciãos prova claramente que, nos dias do Apóstolo havia Assembleias nas quais não havia bispos supervisores apontados. Eles não tinham anciãos apontados por ausência de autoridade apostólica (direta ou indireta) para apontá-los. É evidente então, pela Escritura, que não pode haver anciãos oficialmente indicados exceto por um apóstolo ou seus delegados. Parece então que para o homem apontar anciãos ou ordenar ministros é agir sem a permissão da Escritura.

Isso não implica que o trabalho de bispo que supervisiona não possa ser feito, ou que não há aqueles aptos para o trabalho em dias de ruína. O trabalho de bispo que supervisiona nunca foi tão necessário quanto hoje, e aqueles que estão, conforme a Escritura, qualificados para o trabalho podem em simplicidade servir ao povo do Senhor em sua própria localidade; e é bom para nós reconhecermos o tal, tendo sempre em mente a força exata das palavras do Apóstolo quando diz, “Se alguém deseja o episcopado, deseja um bom trabalho”. O apóstolo não fala de um homem desejando “ofício” a fim de possuir uma posição ou exercer autoridade, mas do desejo de exercer este “bom trabalho”. A carne gosta de ofício, e posição, e autoridade, mas isso evitará “trabalho”.  Quando isso é visto, temos de admitir que há poucos que têm o desejo contemplado pelo Apóstolo.

(vs.2,3) As qualidades que deveriam marcar esses tais são claramente colocadas diante de nós; e como alguém disse, “As instruções mesmo para anciãos e diáconos não são, por assim dizer, meramente para seu próprio interesse; eles nos mostram o caráter que Deus valoriza e procura em Seu povo.” (F.W.G).

O caráter moral do ancião deve estar acima de reprovação. Ele deve ser marido de uma esposa, uma qualificação que teria uma aplicação especial àqueles emergindo do paganismo com sua poligamia. Um homem convertido, embora não fosse rejeitado por ter mais de uma esposa, não estaria adequado para supervisionar. Além disso, um tal tinha de ser sóbrio em julgamento, discreto em suas palavras, decoroso no comportamento, hospitaleiro. Ele deveria ser apto a ensinar, não necessariamente implicando que ele teria dom de mestre, mas que ele tinha aptidão para ajudar outros em seus exercícios espirituais. Ele não deveria ser uma pessoa dada ao excesso de vinho ou violento; ao contrário, ele deveria ser manso, evitando contendas e livre de cobiça.

(vs.4,5) Além disso, ele deve ser aquele que governa bem a sua casa, tendo seus filhos em sujeição, exortações que claramente indica que o bispo que supervisiona deveria ser um ancião, que não apenas é casado e possui um lar, mas que também tem filhos.

(v.6) Ele não deveria ser um neófito. Um jovem cristão pode ser usado pelo Senhor para pregar a outros assim que se converte, mas para tal tomar o lugar de um bispo que supervisiona seria obviamente errado, e provavelmente o levaria a cair na condenação do diabo. O erro do diabo, alguém verdadeiramente disse, que “ele exaltou-se a si mesmo com o pensamento de sua própria importância” (J.N.D.).

(v.7) Finalmente, o bispo que supervisiona deve ter um bom testemunho diante dos de fora, de outro modo, ele vai cair em reprovação e no laço do diabo. O laço do inimigo é apanhar o crente numa armadilha em conduta questionável diante do mundo, assim ele não pode mais tratar entre os santos com uma conduta questionável.

(v.8) O Apóstolo dá mais adiante as qualificações necessárias aos diáconos. O diácono é um ministro, ou aquele que serve. De Atos 6 aprendemos que este trabalho especial é descrito como “servindo às mesas” e como conexão mostra que isto refere-se a satisfazer as necessidades corporais e temporais da assembleia, em contraste com o trabalho do bispo que supervisiona que é mais especialmente concernente em atender às necessidades espirituais. Apesar disso, não deixa de ser necessário que o diácono tenha qualificações espirituais. Aqueles escolhidos para o trabalho de diáconos na Igreja primitiva em Jerusalém tinham de ser “homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria” (Atos 6:3). Aqui aprendemos que, assim como os bispos que supervisionam, eles tinham de ser sérios, não de duas palavras, não dados ao excesso de vinho ou à cobiça.

(v.9) Além disso, eles tinham de ser marcados por “guardar o mistério da fé em uma consciência pura”. Guardar uma correta doutrina não é suficiente. Ortodoxia sem uma pura consciência indica quão pouco a verdade tem poder sobre quem a possui, portanto, quão impotente tal seria para influenciar outros.

(v.10) Além disso, os diáconos devem ser aqueles que foram testados e provados pela experiência para serem irrepreensíveis em sua própria conduta e então capazes de lidar com questões que devido à necessidade, viriam diante deles no seu serviço.

(vs.11,12) Suas esposas também tinham de ser sérias, não difamadoras e fiéis em todas as coisas. O caráter delas é especialmente referenciado na medida em que o serviço dos diáconos, tendo em haver com necessidades temporais, pudesse dar ocasião para as esposas cometerem maldades, a menos que fossem “fiéis em todas as coisas”. Assim como os bispos que supervisionam, os diáconos tinham de ser marido de uma só esposa, governando bem seus filhos e suas casas. Novamente, estas exortações implicam que o diácono não é um homem jovem, mas casado e tem filhos, e assim um homem com experiência.

(v.13) No caso pode-se pensar que o ofício do diácono era inferior ao do bispo que supervisiona, mas o Apóstolo especialmente declara que aqueles que usam o ofício de diácono, obterão para si mesmos uma boa posição, e muita ousadia na fé a qual é em Cristo Jesus; a verdade, assim como é frequentemente apontada, notavelmente ilustrada na história de Estevão (Atos 6:1-5; 8-15).

(e) O Mistério da Piedade (vs. 14-16)

(vs.14,15) O apóstolo encerra esta parte de sua Epístola, declarando definitivamente que a razão para escrever “essas coisas” é que Timóteo pudesse saber como alguém deve se comportar na Casa de Deus.

É-nos dito que a Casa de Deus é “a Assembleia do Deus vivo”. Não é mais um templo feito de pedras, como nos dias do Antigo Testamento, mas um grupo de pedras vivas – crentes. É formada por todos os crentes vivendo na terra em qualquer momento. Nenhuma Assembleia local é jamais chamada de A Casa de Deus.

Além disso, é a Assembleia do Deus vivo. O Deus que habita no meio do Seu povo não é como os ídolos mortos que os homens adoram que não podem ver nem ouvir. Que nosso Deus é vivo é uma verdade abençoada, de solene importância, mas podemos esquecer facilmente. Mais tarde o Apóstolo pode dizer-nos que nós podemos ”ser afligidos e sofrer reprovação, porque esperamos no Deus vivo” (4:10). O Deus vivo é um Deus que se deleita em cuidar e abençoar Seu povo; contudo, se a santidade que forma a Sua casa não é mantida, Deus pode fazer manifesto que Ele é o Deus vivo em tratamento governamental solene como com Ananias e Safira, que experimentaram a verdade das palavras “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.¨(Hb. 10:31).

Além disso, aprendemos que a Casa de Deus é a coluna e o fundamento da verdade. A “coluna” apresenta a ideia do testemunho; o “fundamento” é o que o suporta. Não foi dito que a Casa de Deus seja a verdade, mas a “coluna” ou testemunho da verdade. Cristo na terra foi “a verdade” (Jo. 14:6); e novamente lemos, “Tua palavra é a verdade” (Jo. 17:17). Apesar de que a Assembleia possa ter falhado muito em suas responsabilidades, o fato é que, como estabelecida por Deus na terra, é o testemunho e suporte da verdade. Deus não tem outro testemunho na terra. Em dias de ruína, podem ser uns poucos fracos que manterão a verdade, enquanto a grande massa professante, falhando em ser testemunho, será vomitada da boca de Cristo.

É importante lembrar que não é dito que é para a Assembleia ensinar a verdade, mas ser testemunha da verdade que já se encontra na Palavra de Deus. Nem pode a Assembleia reclamar autoridade para decidir o que é verdade. A palavra é a verdade e carrega sua própria autoridade.

(v.16) Como a Assembleia é a Casa de Deus – do Deus vivo – e a testemunha e fundamento da verdade, como é importante que saibamos como nos comportar na Casa de Deus. Em vista de um comportamento piedoso o Apóstolo diz “o mistério da piedade” ou o segredo do comportamento correto. Alguém escreveu sobre essa passagem: “Isto é frequentemente citado e interpretado como se falasse do mistério da divindade, ou o mistério da Pessoa de Cristo; mas é o segredo da piedade, ou o segredo pelo qual toda a real piedade é produzida – a fonte divina de tudo o que se pode chamar de piedade no homem” (J.N.D). Este mistério da piedade é o que é conhecido por piedade, mas não manifestado ainda ao mundo. O segredo da piedade está no conhecimento de Deus manifestado através e na Pessoa de Cristo. Assim nesta maravilhosa passagem temos Cristo apresentado, fazendo Deus conhecido aos homens e anjos. Em Cristo, Deus foi manifestado em carne. A santidade absoluta de Cristo foi vista em que Ele foi justificado no Espírito. Nós somos justificados na morte de Cristo: Ele foi selado e ungido completamente separado da morte – a prova de Sua santidade que lhe é própria.  Então, em Cristo, como Homem, Deus foi visto pelos anjos. Em Cristo, Deus foi conhecido e crido no mundo. Finalmente, o coração de Deus é conhecido pela presente posição de Cristo na glória.

Tudo isso é dito como “mistério da piedade”, porque essas coisas não são conhecidas por um incrédulo. Tal, na verdade, pode apreciar externamente a conduta que flui da piedade; mas o incrédulo não pode saber a fonte secreta da piedade. Esse segredo é conhecido somente pelos piedosos; e o segredo está no conhecimento de Deus; e o conhecimento de Deus foi revelado a eles em Cristo.

Por Hamilton Smith

Tradução: Rosimeri F. Martins (Curitiba), revisão Batista (Limeira).
Texto original: http://www.stempublishing.com/authors/smith/1TIMOTHY.html