domingo, 23 de abril de 2017

I Timóteo - Um Resumo Expositivo - H. Smith - Parte VI

VI.
ADVERTÊNCIAS CONTRA O ORGULHO DA CARNE E INSTRUÇÕES EM PIEDADE
(Capítulo VI)

O Apóstolo nos advertiu contra religiosidade da carne que apostata da verdade e adota asceticismo (Cap. 4); e contra a carne mundana, levando à indiferença e deleites próprios (5); agora no capítulo final somos advertidos contra o orgulho da carne que cobiça dinheiro e vantagens mundanas. Para enfrentar esses males o Apóstolo nos reforça novamente a piedade prática (vs. 3, 5, 6, 11).

No curso de sua exortação o Apóstolo passa diante de nós o Cristão servo (vs. 1,2); o soberbo e ignorante professante do Cristianismo (vs. 3-8); o apóstata, seduzido pelas riquezas do mundo (vs. 9-10); o homem de Deus (vs. 11-12); Cristo o perfeito exemplo (vs.13-16); o crente que é rico neste mundo (vs.17-19); e o cientista professo (vs. 20,21).

(a) Cristãos servos (vs. 1-2)

(v.1) O capítulo adequadamente abre com instrução para Cristão que é servo. O tal pode tentar usar o Cristianismo como meio de melhorar sua posição social. A instituição da escravidão pode de fato ser inteiramente contrária ao espírito do Cristianismo. Todavia o grande objeto da Casa de Deus não é colocar o mundo em ordem, nem para promover os interesses mundanos daqueles que formam a casa, mas manter a glória do Nome de Deus e testemunhar, e sustentar, a verdade. O servo Cristão deveria mostrar toda honra ao seu senhor incrédulo, para que não haja nada em sua conduta que possa justamente lançar qualquer mácula sobre o Nome Daquele que habita na Casa, ou que negue a verdade que a Casa de Deus deve manter.

(v.2) O Apóstolo dá um aviso especial ao servo Cristão que tem senhor crente. O fato de que seu mestre é um irmão no Senhor não deveria ser usado para colocar de lado o respeito que é devido de um servo ao seu mestre. Qualquer falta de respeito apropriada seria uma tentativa por parte do servo de usar o Cristianismo para subir em sua posição social, procurando assim sua própria vantagem mundana.

Na Assembleia o servo e o seu senhor estão num terreno comum, igual diante do Senhor. Ali, de fato o servo, por causa de sua espiritualidade ou dom, pode ser mais proeminente do que seu senhor terreno. Que os servos crentes possam, no entanto, ter cuidado para que não sejam tentados a abusarem dos privilégios da Assembleia fazendo dela um terreno para familiaridade indevida com seus senhores, nos afazeres diários da vida. Esteja longe de folgar em suas funções aos senhores que são crentes, mas em vez disso deveriam render-lhes serviço porque eles são fiéis e amorosos e participantes dos benefícios Cristãos.

(b) O professante ignorante, destituído da verdade (vs. 3-8)

(v.3) Claramente então o Cristianismo não é um sistema para o crescimento da nossa posição social neste mundo. É verdade que o crente, ao passar por este mundo, deve fazer o bem, e que a presença do Cristão e a correta conduta do Cristão deve ter um efeito benéfico. Contudo, o grande objeto da Casa de Deus não é melhorar o mundo, mas testemunhar a graça de Deus a fim de que os homens possam ser salvos para fora do mundo que, apesar de civilizado e de qualquer melhoria social, vai ser julgado.

Aparentemente naqueles primeiros dias havia aqueles que ensinavam o contrário. Viam o Cristianismo meramente como um meio de melhorar a condição social de homens e mulheres e assim fazendo deste mundo um lugar melhor e mais brilhante. Provavelmente eles estavam ensinando que os servos convertidos, tendo vindo sob o Senhorio de Cristo, poderiam considerar-se livres dos seus senhores terrenos. Tais visões, entretanto, eram contrárias às sãs palavras; e as palavras do nosso Senhor Jesus Cristo, e ensino, que é de acordo com a piedade.

Assim novamente o Apóstolo traz a piedade como proteção contra o abuso dos nossos privilégios Cristãos. Piedade caminha no temor de Deus, confiando no Deus vivo que é o preservador de todos os homens. Assim andando devemos nos preservar de buscar usar o Cristianismo simplesmente como um meio de melhorar a nossa posição no mundo.

(vs.4,5) Tendo mostrado que a piedade é a proteção contra o abuso do Cristianismo, o Apóstolo declara que aquele que ensina outra doutrina é movido pelo orgulho da carne. Orgulho que confia em si mesmo e procura manter a importância própria, é completamente oposto à piedade que confia em Deus e busca Sua glória.

Por trás desse orgulho há a ignorância sobre a mente de Deus que é transmitida em Suas palavras. Essa ignorância a respeito da mente do Senhor surge pelo deixar a mente humana estar ocupada com as infindáveis questões levantadas pelos homens e contendas sobre palavras. Completamente indiferente ao poder moral da fé Cristã trabalhando na alma e conduzindo à vida de piedade, os homens tratam o Cristianismo como se fosse “questões e disputas de palavras”.

Tais disputas de palavras, em vez de fortalecer a piedade apenas dá ocasião para manifestações de obras da carne. O orgulho que busca exaltação própria por meio dessas infindáveis palavras deve inevitavelmente levar à “inveja”; porque para o homem orgulhoso não pode haver rival. Naturalmente a carne se esforçará contra aquele que é invejoso. Então a inveja leva à contenda, e contender contra outro levará a “injuriosas palavras” sobre ele. O conhecimento de que “palavras injuriosas” estão sendo proferidas levantará “más suspeitas” e “constantes desavenças”. Tal é a colheita do mal que surge da inveja. Não há poder maior para o mal entre os santos de Deus do que permitir a inveja no coração. “A ira é cruel e a raiva é ultrajante; mas” diz o pregador “quem é capaz de permanecer diante da inveja?” Foi a inveja que levou ao primeiro homicídio neste mundo; e foi a inveja que levou ao maior homicídio deste mundo. Pilatos “sabia que por inveja eles O haviam entregado” (Mt. 27:18).

Ai de nós!  Esta inveja pode aparecer entre o verdadeiro povo de Deus. Aqui o Apóstolo volta ao orgulho do coração que é corrupto e destituído da verdade do Cristianismo. O motivo fundamental disso é o ganho terreno, portanto sustentam que o “ganho” é a finalidade da piedade. Em outras palavras eles ensinam que o Cristianismo é meramente um meio de melhorar nossa condição e nos acrescentar vantagem terrena. Isto nós sabemos, da história de Jó, é realmente sugestão do diabo. Jó era um homem piedoso e alguém que temia a Deus, mas Satanás diz, “Porventura teme Jó a Deus debalde (inutilmente)?” (Jó 1:9). A sugestão vil de Satanás é que tal coisa como piedade não exista, e se um homem faz a profissão de piedade, não é porque ele teme a Deus, ou se importa com Deus, mas simplesmente porque ele sabe que vale à pena e isso é para sua vantagem terrena. Satanás diz a Deus, “Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.” (Jó 1:11). O Senhor permite que esta horrível mentira do diabo seja completamente exposta.  É permitido a Satanás tirar de Jó tudo o que ele tem e como resultado Satanás é exposto como um mentiroso. Em vez de amaldiçoar a Deus, Jó prostrou-se diante do Senhor e adorou dizendo, “o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor.” (Jó 1:21).

(vs.6-8) Então a verdade, assim como a experiência do povo de Deus, prova, não apenas que piedade é ganho, mas quando acompanhada de contentamento que confia em Deus, ela é um grande ganho.  Não trouxemos nada ao mundo, e quaisquer que sejam as posses que possamos adquirir enquanto passamos pelo mundo, é evidente que não podemos levar nada. Tendo sustento e com o que nos cobrirmos – e os servos tinham isso – vamos com isso estar contentes.

(c) O apóstata seduzido pelas riquezas do mundo (vs. 9,10).

Em contraste com o contentamento divino há a inquietação daqueles que desejam ser ricos. A riqueza tem suas armadilhas como o Apóstolo mostra mais tarde, mas não é necessariamente a posse da riqueza que arruína a alma, mas o “desejo de ser rico” (N.Tn). Foi apontado que esta palavra “desejo” inclui a ideia de propósito. O perigo é que o crente, em vez de estar contente ganhando seu sustento, pode colocar-se com o “propósito” de coração de ser rico. Então as riquezas se tornam o objeto em vez do Senhor. É melhor para nós apegarmo-nos ao Senhor “com propósito de coração” (Atos 11:23).

O Apóstolo nos adverte dos males que resultam do desejo de obter riquezas. Todos são tentados, mas aquele que deseja ser rico vai cair em tentação e encontrar-se pego em alguma armadilha do inimigo. Além disso, o desejo de ser rico abre caminho para concupiscências loucas e nocivas, porque induz à vaidade e orgulho da carne, servindo ao egoísmo e ambição. Essas são as coisas que lançam os homens na destruição e ruína. Então não é simplesmente o dinheiro, mas “o amor ao dinheiro” que é a raiz de todos os males. Quão solene é que seja possível ao crente ser atraído às próprias coisas que trazem destruição e ruína sobre os homens do mundo. Mesmo nos dias do Apóstolo alguns cobiçaram em busca de riquezas, apenas para desviarem-se da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.

(d) O homem de Deus (vs. 11,12).

(vs.11) Em contrataste com o apóstata que se desvia da fé, o Apóstolo coloca diante de nós as características do “homem de Deus”. No Novo Testamento, a expressão “homem de Deus” ocorre apenas nas Epístolas a Timóteo. Aqui é definitivamente aplicada a Timóteo; na Segunda Epístola é aplicada a todos que, num dia mal, anda em fiel obediência à Palavra de Deus (2 Tm. 3:17). Há coisas das quais o homem de Deus deve “fugir”; coisas a que é exortado a “seguir”; coisas pelas quais é chamado a “lutar”; há algumas coisas a serem “guardadas”; e algumas coisas a serem “confessadas”.

O homem de Deus fugirá das concupiscências loucas e nocivas das quais o Apóstolo vem falando. Não é suficiente, no entanto, evitar o mal; deve haver a busca do bem. Além disso, o homem de Deus deve seguir após “justiça, piedade, fé, amor, persistência, mansidão de espírito” (N.Tn.). Independentemente de como outros possam agir, o homem de Deus vai procurar andar em consistência com os relacionamentos de um para com o outro como irmãos; isso é justiça. Mas a justiça de um para com o outro é aprendida no santo temor que concretiza nosso relacionamento com Deus, e com aquilo que é devido a Deus; isto é piedade. Além disso, o homem de Deus procurará a fé que tem Cristo por seu objeto e “amor” que flui para os irmãos, suportando o mal e insultos com paciência tranquila e mansidão, em vez de impaciência e ressentimento.

(vs.12) Além disso, o homem de Deus não estará contente fugindo do mal e seguindo certas grandes qualidades morais. Essas são coisas, realmente, de primeira importância, mas o homem de Deus não está contente com a formação de um belo caráter individualmente, se indiferente à manutenção da verdade do Cristianismo.  Ele compreende que as grandes verdades do Cristianismo vão de encontro à incessante e mortal oposição do diabo e ele não vai retroceder do conflito, pela fé.

Além disso, lutando pela fé, o homem de Deus não esquecerá a vida eterna a qual, embora ele a possua em sua plenitude, está diante dele. Ele deve guardá-la em gozo presente como sua esperança sustentadora.

Finalmente, se o homem de Deus foge do mal, segue o bem, luta pela fé e guarda a vida eterna, ele será aquele que em sua vida faz a boa confissão diante dos outros. Ele se torna uma testemunha viva da verdade que ele professa.

(e) O exemplo perfeito (vs. 13-16)

Para nos encorajar a manter esta responsabilidade, o Apóstolo nos lembra de que vivemos à vista Daquele que preserva todas as coisas em vida (N.Tn.).  Não pode Ele então preservar os Seus, não obstante quão severo possa ser o conflito pelo qual devem passar? Além disso, se somos chamados à fidelidade, não nos esqueçamos de que estamos debaixo do olho Daquele que tem estado diante de nós no conflito, e Quem, na presença de contradições dos pecadores, da inveja e insulto, agiu em absoluta fidelidade a Deus, mantendo a verdade em paciência e mansidão, e assim testemunhado uma boa confissão.

Além disso, fidelidade terá sua recompensa. O mandamento é, portanto, para ser mantido sem mancha e irrepreensível, até o aparecimento de Jesus Cristo. A glória da Sua aparição trará com ela uma resposta a qualquer pequena fidelidade da nossa parte, como, realmente será a gloriosa resposta à perfeita fidelidade de Cristo. Assim na verdade, quando O Homem injuriado, insultado e crucificado aparecer na glória, haverá não apenas uma resposta completa a toda a Sua fidelidade, mas uma completa mostra de tudo que Deus é. Será manifestado a todo o mundo o que já é revelado à fé; isso, na Pessoa de Cristo, Deus é revelado como o abençoado e o único Soberano, o Rei dos reis, e o Senhor dos senhores, Aquele que, na majestade da Sua Deidade, sozinho tem imortalidade essencial e que habita em luz inacessível.

Aqueles que formam a Casa de Deus podem falhar no testemunho para Deus; o homem de Deus pode apenas mostrar Deus em medida, mas em Cristo haverá a completa mostra de Deus para Sua glória eterna.

(f) O rico neste mundo (vs. 17-19)

O Apóstolo tem uma exortação especial aos crentes que são ricos neste mundo. Tais são assediados por dois perigos. Em primeiro lugar, há a tendência das riquezas levar os que a possuem a assumir um ar de mente elevada, achando a si mesmos superiores aos outros por causa das suas riquezas. Em segundo lugar, há a tendência natural a confiar nas riquezas, que na melhor das hipóteses, são incertas.

A proteção contra essas armadilhas é encontrada em crer no Deus vivo, que nos deu todas as coisas para desfrutarmos delas. Por mais que um homem seja rico, não pode comprar as coisas que Deus dá. Por mais pobre, ele pode receber e desfrutar o que Deus dá.

Confiando no Deus vivo, que é o Dador de todo o bem, capacitará também ao homem rico a se tornar um doador; mas Deus ama quem dá com alegria; assim o homem rico é exortado a estar “pronto a distribuir” e “disposto a comunicar”. Agindo assim ele estará fazendo um bom depósito em vista de bênçãos futuras em vez de guardar riquezas para o tempo presente. O homem que deposita para o tempo vindouro guardará aquilo que é realmente vida em contraste à vida de prazer e deleites do nosso próprio desejo que as riquezas terrenas podem garantir.

(g) O cientista professo (vs. 20,21).

Finalmente somos advertidos a guardar “o depósito confiado”. A completa verdade do Cristianismo foi dada aos santos como um “crédito” a ser mantido diante de todas as oposições. Aqui somos especialmente advertidos contra a oposição das teorias dos homens que provam ser completamente falsas por sujeitar Deus, Sua criação e Sua revelação à mente do homem, em vez de estar sujeito a Deus e Sua palavra. Presunçosamente ocupados com suas teorias infiéis eles perderam a fé.

Mackenzie & Storrie, Ltd., Printers, 28-32 Coburg Street, Leith.

Por Hamilton Smith

Tradução: Rosimeri F. Martins (Curitiba), revisão Batista (Limeira).
Texto original: http://www.stempublishing.com/authors/smith/1TIMOTHY.html

domingo, 16 de abril de 2017

I Timóteo - Um Resumo Expositivo - H. Smith - Parte V

V.
ADVERTÊNCIAS CONTRA O MUNDANISMO E INSTRUÇÕES EM PIEDADE
(Capítulo V)

Tendo advertido contra o mal de alguns que apostatarão do Cristianismo e adotarão uma falsa religião da carne, o Apóstolo nos adverte contra os males que podem surgir do mundanismo dentro do círculo Cristão, e instrui como lidar com as necessidades do povo de Deus, para que nada seja permitido que seja uma ocasião para reprovação e assim impedir o testemunho da graça de Deus diante do mundo. 

(a) O espírito com o qual os que erram devem ser tratados (vs. 1,2)

Podem surgir ocasiões onde o mal se manifesta no círculo Cristão, que corretamente exigem repreensão. Contudo, na administração da repreensão temos de reconhecer o que é devido em função da idade e sexo, e então ser cuidadosos para que a repreensão seja feita no espírito correto. A repreensão pode estar correta e ainda assim não ter efeito, ou mesmo pode causar dano, por causa do espírito errado com que é feita. Uma repreensão correta num espírito errado é simplesmente o encontro da carne com a carne.

A idade é para ser respeitada mesmo quando uma repreensão é necessária. Um irmão idoso não é para ser repreendido rispidamente (N. Tn), mas exortado com todo o respeito que um filho daria a um pai. Os homens jovens não devem ser tratados em menor conta, mas repreendidos com amor como irmãos, às mulheres idosas com respeito como uma mãe. Mulheres jovens devem ser tratadas “em toda pureza” assim evitando o descuido da familiaridade que o caráter possa adotar.

Assim em todo o nosso tratar uns com os outros, a maneira deve ser tal que nada seja feito que cause indignação e dê ocasião ao escândalo.

(b) Instruções de como atender as necessidades do povo de Deus e advertências contra os deleites em coisas temporais (vs. 3-16)

(v.3) Primeiro somos instruídos a termos devidamente em conta as viúvas que são verdadeiramente viúvas. Uma verdadeira viúva não é simplesmente uma pessoa privada do seu marido, mas alguém marcada por certas qualidades morais. Estando ou não em necessidade, isso deve ser honrado.

(v.4) Se, no entanto essas tiverem necessidades temporais, deixem os descendentes provar sua piedade prática recompensando seus pais, porque isso é bom e aceitável diante de Deus. Aqui novamente vemos que piedade traz Deus em todos os detalhes da vida e busca agir de forma que é agradável a Deus.

(v.5) O Apóstolo então nos dá belas características daquela que é “verdadeiramente viúva”. Ela está desamparada, por estar sem recursos humanos; sua confiança está em Deus – ela espera em Deus – e ela depende de Deus, pelo que “persevera de dia e de noite em rogos e orações”.

(v.6) Em contraste com a verdadeira viúva, o Apóstolo nos adverte contra qualquer um na Casa de Deus que se entrega si mesmo “em deleites” (N.Tn.). Tal está morta, mesmo viva. Somos exortados a nos considerarmos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Jesus Cristo (Rm. 6:11). Não podemos viver para nós mesmos e para Deus ao mesmo tempo. Se vivemos para nós, vivemos para o pecado, o que é ilegalidade, ou deleite dos nossos próprios desejos. Hábitos de prazer próprio devem trazer a morte espiritual entre a alma e Deus.

(v.7) Tais advertências são necessárias a fim de que, andando em piedade, cada um na Casa de Deus possa não somente ser aceitável e agradável a Deus, mas irrepreensível diante dos homens.

(v.8) Para um Cristão que falha em prover a si mesmo e especialmente àqueles de sua própria casa, é afundar abaixo do que é natural, e assim negar a fé do Cristianismo que sanciona esses relacionamentos naturais e nos ensina a respeitá-los. E assim é possível para um Cristão, se agindo na carne, se comportar de uma maneira que é “pior do que o infiel”.

(vs.9,10) Pode, no entanto, haver indivíduos necessitados no círculo Cristão, que não têm parentes para ajudá-los. Tais devem ser colocados na lista daqueles que podem ser justamente cuidados pela Assembleia. No entanto, deve-se tomar cuidado para não usar a Casa de Deus meramente como se fosse uma instituição que oferece ajuda às pessoas carentes.

A graça pode, com efeito, em ocasiões, ajudar os mais abandonados. Aqui é uma questão de adequação para inclusão na lista daqueles que devem receber assistência regular do povo de Deus. Tais devem, por seu viver, ter provado sua aptidão para receber tal ajuda. Em pessoas com saúde normal, os aptos para a lista devem ser de uma idade quando, em circunstâncias normais ela não seria mais capaz de trabalhar para seu sustento; ela deve ter sido esposa de um só marido e aquela da qual um testemunho honrado é produzido em razão de suas boas obras educando os filhos, se demonstrou hospitalidade, se lavou os pés aos  santos, se confortou os aflitos e realmente seguiu toda boa obra.

Muito abençoada essa Escritura que mostra o quanto uma mulher piedosa pode fazer para agradar a Deus ajudando o povo do Senhor. As omissões, no entanto, são tão marcantes quanto às boas obras que são enumeradas. Nada é dito sobre ensinar ou pregar, ou efetivamente nada que levaria a mulher à proeminência de maneira pública, contrária à ordem da Casa de Deus.

(vs.11-13) As viúvas jovens não devem ser colocadas na lista. Prover para tais, no caso de verdadeiras viúvas, as levaria a esquecer de Cristo como seu único objeto e em vez disso ter diante de si o mero desejo de casar novamente, e então tornarem-se culpadas de abandonar sua primeira fé. Assim é possível, não apenas perder nosso primeiro amor, mas abandonar a nossa primeira fé a qual, no começo da nossa vida Cristã, fez de Cristo o grande objeto.

Além disso, colocar viúvas jovens na lista as encorajaria a ociosidade e isso se tornaria uma armadilha porque sua ociosidade as levaria a vagar de casa em casa como “fofoqueiras e intrometidas” (N.Tn.). Uma fofoqueira repete histórias e mexericos para prejudicar os outros; uma intrometida interfere nas coisas dos outros expressando livremente opiniões sobre assuntos que não lhe dizem respeito. Em nenhum dos casos há nenhuma ideia de ajuda ao necessitado, ou a busca de corrigir qualquer erro, mas sim a satisfação da carne no seu amor à calúnia. Fofoqueiras e intrometidas, quer repetindo o que é falso ou verdadeiro, estão nos dois casos  “falando coisas as quais elas não deveriam”. O pregador diz: “O que anda tagarelando revela o segredo” (Pv. 20:19); e novamente, “mas todo tolo é intrometido” (Pv 20:3). A lei diz, “Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo” (Lv. 19:16). O Cristianismo nos adverte contra “andar de casa em casa” como “fofoqueiros e intrometidos”.

Nomes foram arruinados e quebrados;
Que deteriorações contagiosas foram agitadas
Por uma palavra em leviandade falada
Por apenas uma palavra ociosa!

(v.14) O julgamento do Apóstolo é que mulheres mais jovens devam se casar e encontrar sua própria esfera de atividade na vida doméstica, educando os filhos e guiando a casa. Quer dirigido aos idosos, ou as viúvas, ou mulheres mais jovens, todos devem se lembrar de que eles fazem parte da Casa de Deus e na Casa de Deus nada deve ser permitido que dê ocasião ao adversário de falar de maneira acusativa.

(v.15) Por negligenciar essas instruções alguns realmente se desviaram indo após Satanás. Eles podem não admitir ou perceber a seriedade do seu curso; mas evidentemente crescer sem cuidado, ou libertino em relação a Cristo levaria a alma a ser seduzida por Satanás e se desviando para as tentações do diabo.

(v.16) Viúvas nas famílias dos Cristãos devem ser ajudadas pela família, deixando a Assembleia livre para socorrer àquelas que são viúvas realmente.

(c) As necessidades dos presbíteros (vs. 17-21)

O Apóstolo passa a nos instruir como satisfazer as necessidades daqueles que têm posição oficial como presbíteros e o espírito no qual nenhuma acusação do mal contra tais devem ser feitas.

(vs.17,18) O trabalho dos presbíteros era assumir a liderança nas Assembleias do povo de Deus (N.Tn.). Eles são responsáveis por verificar que a ordem divina seja mantida em público e privado. Honra era devida a um presbítero como tal; aqueles que fizeram bem seu trabalho foram contados como dignos de dupla honra, especialmente aqueles que, além de cuidarem dos santos, trabalharam na palavra e ensino. Além disso, suas necessidades temporais não eram para ser esquecidas. Ambos, o Velho e o Novo Testamento são citados por terem a mesma autoridade como escrituras, para reforçar a nossa responsabilidade em ajudar o trabalhador (no Senhor) (Dt. 25:4; Lc.10:7).

(v.19) Os presbíteros, em razão dos seus serviços seriam mais confiáveis que os outros, em mal-entendidos e difamação. Tendo que por vezes lidar com erros em outros, o que pode gerar ressentimentos e mal-estar, isso poderia manifestar-se em acusações maliciosas. Pode haver certamente, justa causa para uma acusação, mas ela não era para ser aceita sem testemunhas.

(vs.20,21) Ofensores, quer presbíteros ou não, dos quais o erro tenha sido completamente provado por uma testemunha adequada, devem ser repreendidos diante dos outros para que tenham temor. No entanto, tudo no sentido da repreensão deve ser feito não simplesmente diante dos outros, mas “diante de Deus” cuja casa somos nós, diante do Senhor Jesus Cristo, Que é Filho sobre a Casa de Deus e diante dos anjos eleitos que são ministros daqueles que formam a Casa. Assim a repreensão deveria ser sem “preconceito”, que formaria um julgamento sem a completa consideração de toda a questão, e sem parcialidade, que preferiria um perante outro.

(d) Cuidado na expressão da comunhão (v.22)

Nas Escrituras, impor as mãos sobre outro é sinal de comunhão, em vez de demonstração de autoridade como a Cristandade ensina. Falsa liberalidade pode afetar a grandeza de coração estendendo a comunhão descuidadamente para aqueles que estão seguindo um curso errado. Assim podemos colocar nossa aprovação no mal e participar do pecado de outros homens. Temos de nos manter puros, uma ordem que claramente prova que podemos ser contaminados por nossas associações.

(e) Instrução sobre as necessidades do corpo (v.23)

As necessidades de um corpo fraco e sofredor não devem ser negligenciadas. Era para Timóteo “usar um pouco de vinho” por conta de seu estômago e frequentes enfermidades. Timóteo não é culpado por suas doenças, nem é sugerido que a frequência de sua ocorrência prove alguma falta de fé da sua parte; nem é exortado a procurar que presbíteros impusessem as mãos sobre ele ou mesmo orassem por sua cura. A ele é indicado a usar um remédio comum. No entanto, é “um pouco de vinho” e para ser usado por causa do estômago fraco. Assim, não há desculpa, no aviso do Apóstolo, para tomar vinho em excesso ou usá-lo para mera satisfação própria.

(f) Advertências sobre julgar pela aparência (vs. 24,25)

(v.24) No julgamento de nossas associações com outros, temos de nos guardar de sermos enganados pelas aparências. Os pecados de alguns são tão abertos que não há dúvida quanto aos seus caráteres e condenação. Outros podem ser igualmente maus e ainda assim enganar por uma razoável aparência na carne. Contudo seus pecados os levarão para julgamento.

(v.25) Isto pode ser verdade naqueles nos quais a graça foi forjada. Com alguns é obvio que suas boas obras proclamam seus caráteres. Outros podem ser igualmente objetos da graça, mas suas obras podem ser menos públicas. No tempo devido tudo virá à luz.

Ao lermos as instruções e aviso do Apóstolo podemos tomar bem cuidado com a palavra que diz “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” (1 Co.10:12).  Das exortações do capítulo (5) é evidente que o crente pode cair numa condição na qual se encontra em hábitos de satisfação própria (v.6); Ele pode agir de uma maneira que é pior do que um infiel e assim negar a fé (v. 8);   podem tornar-se levianas contra Cristo e assim aniquilarem a primeira fé (v.11); podem tornar-se ociosas andando de casa em casa, paroleiras e curiosas nos afazeres dos outros (v.13); e podem se desviar indo após Satanás (v.15).

Ademais, ao lermos as instruções aprendemos que aqueles que compõem a Casa de Deus devem procurar viver da maneira que é boa e agradável diante de Deus (v.4); irrepreensíveis diante dos homens (v.7); não dando ocasião ao adversário de maldizer (v.14).

Por Hamilton Smith

Tradução: Rosimeri F. Martins (Curitiba), revisão Batista (Limeira).
Texto original: http://www.stempublishing.com/authors/smith/1TIMOTHY.html

sábado, 8 de abril de 2017

I Timóteo - Um Resumo Expositivo - H. Smith - Parte IV

IV.
ADVERTÊNCIAS CONTRA RELIGIOSIDADE DA CARNE E INSTRUÇÕES EM PIEDADE
(Capítulo IV)

Tendo nos instruído sobre a ordem na Casa de Deus e o segredo do correto comportamento da parte daqueles que formam a Casa, o Apóstolo, no restante da Epístola, adverte-nos contra certas atividades carnais que são destrutivas ao correto comportamento e nos instrui quanto à verdadeira piedade que sozinha guardará o fiel desses diferentes males.

No capítulo 4 o Apóstolo adverte mais especialmente contra a apostasia e manifestação religiosa da carne em si no falso princípio do asceticismo (moral filosófica ou religiosa, baseada no desprezo do corpo e das sensações corporais, e que tende a assegurar, pelos sofrimentos físicos, o triunfo do espírito sobre os instintos e as paixões N.T.). No capítulo 5 somos advertidos contra a carne mundana mostrando-se em lascívia e autogratificação. No capítulo 6 somos advertidos contra a carne cobiçosa com seu amor pelo dinheiro.

A proteção contra esses males é encontrada na “piedade”. A verdade da piedade tem um lugar proeminente na Primeira Epístola a Timóteo. A palavra é usada dezesseis vezes no Novo Testamento, em nove dessas ocasiões são encontradas nesta Epístola (2:2; 3:16; 4:7-8; 5:4; 6:3,5,6,11). Piedade é a confiança no conhecido e vivo Deus que conduz o crente a andar em santo temor de Deus no meio de todas as circunstâncias da vida. Ela reconhece e honra a Deus, e é, portanto, a oposição da falsa santidade ou hipocrisia que busca exaltar a si mesmo.

No capítulo 4 o Apóstolo primeiro adverte contra a apostasia de alguns que deixaram o Cristianismo por religião da carne (vs 1-5); então ele coloca diante de nós a vida de piedade como aquela que guardará a alma dos males da carne (vs. 6-10),  finalmente o Apóstolo dá exortações pessoais a Timóteo, contendo instruções e orientação para todos os servos do Senhor (vs. 11-16).

(a) Advertências contra carne religiosa ou asceticismo (vs. 1-5)

O Apóstolo encerrou a parte anterior da Epístola com uma maravilhosa revelação sobre “a fé” mostrando a grande verdade do Cristianismo como sendo a manifestação de Deus em Cristo. Agora o Espírito expressamente adverte que, nos últimos tempos da profissão Cristã, alguns deixariam ou apostatariam da fé. Mais tarde, o Apóstolo nos avisa que alguns, por suas práticas, negariam a fé (v.8); alguns pela cobiça se desviariam da fé (6:10); e alguns, por especulação, perderiam a fé (6:21).

(vs.1,2) Aqui ele fala de apostatar da fé. Claramente, o Apóstolo não está falando da grande apostasia predita na Segunda Epístola aos Tessalonicenses, a qual se refere à apostasia da Cristandade como um todo depois do arrebatamento da Igreja. Nesta passagem o Apóstolo diz “alguns apostatarão”, evidentemente referindo-se a apostasia de indivíduos acontecendo nos últimos dias antes da vinda do Senhor.

Enquanto a Assembleia de Deus ainda está na terra, se levantarão aqueles que fizeram a profissão do Cristianismo, mas desistiram das grandes verdades principais da fé Cristã a respeito da Pessoa de Cristo.

(V.3) Por trás dessa apostasia há a direta influência de espíritos de sedutores conduzindo a doutrinas de demônios em contraste com a verdade. O apóstata não é simplesmente um que negligencia a verdade, nem um que rejeita a verdade. Ele é um que tendo feito a profissão da fé, deliberadamente desiste da verdade e toma algum outro credo religioso como sendo superior ao Cristianismo. Os demônios falam mentiras enquanto professam manter a verdade. O diabo, sabemos “é um mentiroso” (Jo. 8:44) e enganou nossos primeiros pais falando mentiras em hipocrisia. O fato de que a verdade não tem poder sobre suas almas e que dão atenção a doutrinas de demônios prova claramente que as suas consciências estão tão cauterizadas que eles já não são capazes de distinguirem entre o bem e o mal. Apostasia então envolve não somente desistir da verdade, mas também adotar o erro – as doutrinas dos demônios.

No lugar da verdade o apóstata aparenta uma religião da carne que professa ser da mais alta santidade. Eles fazem suposição de extraordinária pureza proibindo o casamento, e grande negação própria pela abstinência (do consumo) de carnes. Na realidade, tendo deixado a fé, eles negam Deus como nosso Salvador e, rejeitando casamento e carne, eles negam Deus como o Criador. Isto significa a perda de toda a verdadeira piedade que teme a Deus, e como resultado abre a porta para um abuso da liberdade e libertinagem. Esses espíritos sedutores, servindo de instrumento para o orgulho da carne, mantém diante dos homens a promessa da maior das santidades a fim de levá-los a uma profunda corrupção.

(v.4) A verdadeira piedade se aproveita de cada misericórdia que Deus coloca ao nosso alcance. As bênçãos do casamento e da carne (alimento), que são rejeitadas por aqueles que se apartam da fé, devem ser recebidas com gratidão por aqueles que creem e conhecem a verdade.

(v.5) O mundo e seus caminhos não são aprovados pela palavra de Deus para o crente; mas essas misericórdias naturais, que estão disponíveis para todo o mundo, são colocadas à parte para nosso conforto enquanto passamos pelo mundo. No entanto, a sua utilização é guardada para o crente, pela palavra de Deus e oração. A palavra de Deus regula seu uso e pela oração o crente as toma na dependência de Deus.

(b) Piedade ou confiança no Deus vivo (vs. 6-10).

(v.6) O apóstolo colocou diante de nós certos perigos contra os quais o Espírito expressamente nos adverte. Timóteo tinha de fazer lembrar essas coisas aos irmãos e assim o fazendo, provaria ele mesmo ser um bom servo de Jesus Cristo nutrido nas palavras da fé e da boa doutrina com a qual ele estava totalmente familiarizado. Os espíritos sedutores, dos quais o Espírito Santo fala, buscaram exaltar o homem com um sentimento de importância religiosa e santidade. O verdadeiro servo busca exaltar Cristo em ministrar a verdade.

Para ser um bom servo de Jesus Cristo, não é suficiente conhecer a verdade e guardar a verdade; nós precisamos ser nutridos pela verdade, e, na prática, seguir completamente a verdade. Nossas próprias almas devem estar alimentadas se temos de alimentar outros. Nós temos de ser nutridos, não simplesmente nas palavras de mestres, apesar de verdadeiras, mas “com as palavras da fé” que transmitem a nós “o bom ensino” do Cristianismo e, se seguida, produzirá um efeito prático em nossas vidas, guardando-nos dos males dos últimos tempos.

(v.7) Tendo nos exortado a seguir a verdade, o apóstolo nos adverte a recusar tudo aquilo que estiver fora das “palavras de fé”. As imaginações dos homens sempre vão tender para a profanação e loucura, as quais o Apóstolo caracteriza com desprezo como “fábulas profanas e de velhas”. Nosso grande “exercício” deveria ser o de sermos encontrados andando em piedade. Nós podemos colocar o serviço antes, mas há sempre o sério perigo de se estar ativo no serviço enquanto negligenciamos a piedade pessoal. O bom servo vai exercitar-se na piedade para que possa estar “santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra.” (2 Tm. 2:21). Podemos às vezes, como os Santos de Corinto, ser muito ativos nos serviços e vangloriar-nos de nossos dons, e como eles, sermos muito não espirituais por não nos exercitamos na piedade.

(V.8) Para enfatizar a importância do exercício espiritual quanto à piedade, o Apóstolo o contrasta com o “exercício corporal”. A alusão é provavelmente aos jogos públicos, como em 1 Coríntios 9:24-25,  onde falando de corridas públicas ele diz “E todo aquele que luta de tudo se abstém”. Ele continua a nos advertir nessa passagem, dizendo que o exercício em temperança tem somente uma vantagem passageira; na melhor das hipóteses apenas para obter uma “coroa corruptível”, em contraste com a “incorruptível” a qual o Cristão tem em vista. Então, aqui ele diz que este exercício corporal é proveitoso apenas em algumas coisas pequenas; mas o exercício espiritual da piedade é proveitoso para todas as coisas, sendo rico em bênçãos nesta vida  como naquela que está por vir.

(V.9,10) O Apóstolo reforça a importância do exercício da piedade declarando “Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação”. É por causa de sua piedade que o apóstolo pode dizer “Porque para isso trabalhamos e somos injuriados”. Podemos estar preparados para trabalhar e sermos proeminente perante os homens, e assim trabalhar e receber aplausos ou trabalhar e exaltar-se a si mesmo. Mas se a piedade estiver por trás do nosso trabalho, isso inevitavelmente vai significar trabalho e repreensão.

O Apóstolo continua a mostrar que a fonte da piedade é a confiança em Deus. Nós confiamos no Deus vivo que é o preservador de todos os homens, especialmente daqueles que creem. Piedade é aquela confiança individual em Deus que ocupa todas as circunstâncias da vida em relação a Deus. O homem não regenerado deixa Deus fora da sua vida; o crente reconhece Deus em todos os detalhes da vida e agradecido recebe e usa toda benção que Deus coloca ao seu alcance, sem abusar dessas bênçãos. Assim, piedade é o antídoto a todas as más influências dos últimos dias, quer seja o mal que tome a forma de asceticismo, celibato, abstinência de carne (alimento) (4:3), negligenciando suas próprias casas e vivendo em prazeres (5:4-6) ou atribuindo importância às vantagens do mundo e do dinheiro (6:3-10).

(c) Preceitos pessoais para o servo do Senhor (vs. 11-16)

(Vs.11,12) Essas coisas Timóteo tinha de ordenar e ensinar. Sendo um homem jovem, ele devia especialmente estar atento contra qualquer presunção ou orgulho da juventude que pudesse macular seu testemunho, levando-o a ser desprezado por causa de sua juventude. Se as suas exortações e instruções aos outros tinham de ter efeito, ele teria de, em sua vida, ser “um modelo dos crentes” – “em palavra, em conduta, em amor, em fé, em pureza”. Ai de nós!  Quão frequentemente maculamos nosso testemunho por falharmos em exibir essas belas qualidades de Cristo. Se as verdades que ensinamos não afetam nossas próprias vidas, podemos esperar que nosso ensino afetasse outros?

(V.13) Sua própria vida sendo pura, o servo estaria livre para procurar ajudar os outros, pela leitura, exortação e ensino. A conexão da leitura com exortação parece mostrar que a leitura não tem referência ao seu estudo pessoal, mas sim à leitura pública das escrituras, a qual naqueles dias tinha um lugar de especial importância.

(v.14) Além disso, no caso de Timóteo, o dom de ministério foi transmitido a ele, e para o qual ele fora especialmente marcado por uma palavra profética de Deus, e com a qual os anciãos expressaram sua comunhão pela imposição de mãos. Tal profecia e imposição de mãos foram completamente estabelecidas no caso de Barnabé e Saulo (Atos 13:2,3). Apesar de correta e bela a vida Cristã, ela não habilitaria o servo a tomar um lugar definitivo de mestre. Para isso, um dom de Deus era necessário. No caso de Timóteo ele podia ir adiante em confiança porque seu dom havia sido transmitido por uma palavra diretamente de Deus, e poderia ser exercido na consciência de que ele tinha a completa comunhão dos anciãos do povo do Senhor. O dom foi dado pela profecia e pela imposição de mãos de Paulo (2 Tm.1:6). Não foi dado pela imposição de mãos dos anciãos: eles impuseram as mãos em Timóteo expressando a sua comunhão com ele. Então encorajado, ele tinha de tomar o cuidado de não negligenciar o dom por qualquer timidez natural.

(v.15) Assim fortalecido e encorajado, Timóteo tinha de devotar-se às coisas do Senhor, como diz o Apóstolo. “Ocupe-se com essas coisas” (N. Tn). Frequentemente nos permitimos estar distraídos por outros objetivos que não os do Senhor e Seus interesses! Bom para nós abraçarmos com todo o coração o Cristianismo e fazermos das coisas do Senhor o nosso interesse – para “estar completamente neles” (N. Tn.). Assim, de fato nosso progresso espiritual será manifestado a todos.

(v. 16) O apóstolo resume sua exortação a Timóteo dizendo “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina”. Forçar a doutrina enquanto descuidado de nosso próprio caminhar, ou fazer muito da piedade pessoal enquanto afirmando que isso é de pequena importância o que temos, são duas armadilhas nas quais muitos tem caído. Ambas são fatais para todo verdadeiro testemunho. É somente quando tomamos consciência de nós mesmos e da doutrina que poderemos salvar a ambos, a nós e aqueles que nos ouvem, dos males dos últimos tempos.

Por Hamilton Smith

Tradução: Rosimeri F. Martins (Curitiba), revisão Batista (Limeira).
Texto original: http://www.stempublishing.com/authors/smith/1TIMOTHY.html

sábado, 25 de março de 2017

I Timóteo - Um Resumo Expositivo - H. Smith - Parte III

III. A ORDEM DA CASA DE DEUS

(Capítulos II e III)

Nesta divisão da Epístola, o apóstolo demonstra o caráter da Casa de Deus (2:1-4); o testemunho da graça de Deus que deve fluir da Casa (2:5-7); a conduta própria de homens e mulheres que formam a Casa (2:8-15); as qualificações necessárias a quem exerce ofício na Casa (3:1-13); e finalmente o mistério da piedade (3:14-16).

(a) A Casa de Deus, uma casa de oração para todas as nações.

(Capítulo I vs.1-4). (Is. 16:7; Mc. 11:17)

(v.1) A Casa de Deus é caracterizada como um lugar de oração. As petições que sobem a Deus da Sua Casa devem ser marcadas por deprecação ou súplicas sinceras por uma necessidade especial surgida em circunstâncias particulares; por meio de “orações” as quais expressam desejos gerais apropriados para todos os tempos; pelas “intercessões” implicando em que os crentes estejam em proximidade de Deus podendo pedir em nome dos outros; e finalmente, por “ações de graça” o que fala de um coração consciente da bondade de Deus, que tem prazer em responder as orações do Seu povo.

Na Epístola aos Efésios, que apresenta a verdade da Igreja no seu chamamento celestial, somos exortados a orar com súplicas por “todos os santos” (Ef. 6:18).  Aqui, onde a Igreja é vista como um vaso de testemunho da graça de Deus, temos de orar com súplicas “por todos os homens”.

(v. 2) Somos especialmente chamados a orar por reis e todos que têm autoridade – aqueles que estão em posição de influenciar o mundo para o bem ou para o mal. Não é apenas “para o rei” ou “nosso rei” que temos de orar, mas “pelos reis”. Isto presume que temos consciência da nossa ligação com o povo de Deus em todo o mundo como formando parte da Casa de Deus, e a verdadeira posição da Igreja estando em santa separação do mundo, não tomando parte em políticas ou governos. No mundo, mas não do mundo, a Igreja tem o alto privilégio de orar, interceder e dar graças em nome daqueles que não oram por si mesmos.

O Apóstolo dá duas razões para as orações por todos os homens. Primeiro é trazido o orar pelos reis e todos em autoridade, tendo em vista o povo de Deus em todo o mundo. Temos de buscar que a soberana bondade de Deus possa então controlar a regras deste mundo para que Seu povo possa levar "uma vida quieta e sossegada em toda a piedade e honestidade”. É evidentemente a mente de Deus que Seu povo pudesse, atravessando este mundo hostil, levar uma vida quieta, não afirmando a si mesmos como se fossem cidadãos deste mundo, em tranquilidade, abstendo-se em tomar parte das disputas do mundo, em “piedade” que reconhece Deus em todas as circunstâncias da vida, e em prática seriedade diante dos homens.  No velho testamento o profeta Jeremias enviou uma carta ao povo cativo na Babilônia, exortando-os a buscarem a paz da cidade na qual eles haviam sido presos em cativeiros, orando ao Senhor por isso: porque diz o profeta, “na sua paz vós tereis paz” (Jr. 29:7). No mesmo espírito temos de buscar a paz do mundo, a fim de que o povo de Deus tenha paz.

(vs.3,4) Então uma segunda razão é dada para as orações do povo de Deus em nome de todos os homens. Orar por todos os homens é “bom e agradável, diante de Deus, nosso Salvador; que quer que todos os homens se salvem”.  Não temos de orar em vista apenas do bem de todos os santos, mas também em vista da benção de todos os homens.

O mundo pode algumas vezes perseguir o povo de Deus e procurar desafogar sobre eles todo o ódio do seu coração para com Deus. A menos que andemos em julgamento próprio, este tratamento estimularia a carne para ressentimento e retaliação. Aqui nós aprendemos que é “bom e agradável diante de Deus” agir e sentir com respeito a todos os homens, como Deus mesmo faz, em amor e graça. Então temos de orar “por todos os homens”, não apenas por aqueles que governam bem, mas também por aqueles que usam o povo de Deus de maneira caluniosa (Lc. 6:28). Temos de orar, não para que se faça julgamento em retribuição para vencer os perseguidores do povo de Deus, mas para que na soberana graça eles possam ser salvos. 

(b) A Casa de Deus, uma testemunha da graça de Deus (vs.5-7)

A Casa de Deus não é apenas para ser um lugar de onde as orações ascendem a Deus, mas também um lugar do qual um testemunho flui para o homem. No tempo devido Deus vai tratar em juízo com o perverso e mesmo agora pode tratar em governo  com aqueles que se colocam em oposição a graça de Deus e os ministros da Sua graça, como na matança de Herodes e a cegueira que veio sobre Elimas (Atos 12:23; 13:6-11). Além disso, Deus pode, em ocasiões solenes, lidar em juízo governamental com aqueles que formam a Casa de Deus, para a manutenção da santidade da Sua casa, como ocorrido no terrível juízo que alcançou Ananias e Safira; e mais tarde, o trato governamental pelo qual alguns na Assembleia dos Coríntios foram levados em juízo (morreram) (Atos 5:1-10; 1 Co. 11:30-32). Tais casos, no entanto, são resultado do trato direto de Deus. A Casa de Deus como tal, deve ser um testemunho de Deus como um Deus Salvador, Que deseja que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade.

A “vontade” de Deus nesta passagem não tem referência aos conselhos de Deus os quais serão certamente cumpridos na maioria. Ela expressa a disposição de Deus para com todos. Deus apresenta-se a Si mesmo como um Deus Salvador que está desejoso que todo homem possa ser salvo. Mas, se os homens serão salvos, isso só pode ser por meio da fé que reconhece “a verdade”. Sobre essa “verdade” a Casa de Deus é a “coluna e firmeza” (3:15). Enquanto a Assembleia estiver na terra, ela é a testemunha e suporte da verdade. Quando a Igreja for arrebatada, os homens cairão de uma vez na apostasia e serão entregues a um forte engano.

(v.5) Duas grandes verdades são trazidas diante de nós como o terreno em que Deus lida com os homens em soberana graça. Primeiro, há um só Deus; segundo, há um só Mediador.

Que há apenas um Deus foi completamente declarado antes de Cristo vir. A unidade de Deus foi o grande fundamento da verdade do Velho Testamento. Era o grande testemunho a Israel, como lemos: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt. 6:4). Era o grande testemunho que tinha de fluir às nações de Israel como lemos: “Todas as nações se congreguem, e os povos se reúnam... Apresentem as suas testemunhas, para que se justifiquem, e se ouça, e se diga: Verdade é. Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor, e meu servo, a quem escolhi; para que o saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo, e que antes de mim Deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá. Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há Salvador” (Is. 43:9-11).

A cristandade enquanto mantendo totalmente a grande verdade de que há um só Deus, apresenta também a verdade igualmente importante de que há um só Mediador entre Deus e os homens.  Esta última verdade é a verdade característica do Cristianismo.

Três grandes verdades são apresentadas caracterizando o Mediador. Primeiro, Ele é um.  Se Deus é um, é igualmente importante lembrar-se da unidade do Mediador. Há um só Mediador e não há outro. O papado e outros sistemas religiosos corruptos da Cristandade negaram esta grande verdade e depreciaram  a glória de um só Mediador, estabelecendo Maria e outros homens e mulheres canonizados como mediadores.

Segundo, o Único Mediador é um Homem, a fim de que Deus possa ser conhecido pelos homens. Os homens não podem ascender a Deus; mas Deus em Seu amor, pode descer ao homem. Alguém disse: “Ele desceu ao mais profundo abismo a fim de que não houvesse ninguém, nem mesmo o mais miserável, que não pudesse sentir que Deus em sua bondade estava perto dele – que desceu até ele – Seu amor encontrando ocasião na miséria; e que não havia nenhuma necessidade em que Ele não pudesse estar presente e a qual Ele não  pudesse satisfazer ” (J.N.D.).

(vs.6,7) Terceiro, este Mediador deu-Se a Si mesmo como resgate por todos. Se Deus tem de ser proclamado como um Deus Salvador, que quer que todos os homens se salvem, Sua santidade deve ser vindicada e Sua glória mantida. Isto tem sido perfeitamente cumprido pela obra propiciatória de Cristo. A majestade de Deus, justiça, amor, verdade, e tudo que Ele é, tem sido  glorificado na obra feita por Cristo. Ele é a propiciação para todo o mundo. Tudo que era necessário foi feito. Seu sangue está disponível para o mais vil, seja quem for, uma vez que o evangelho ao mundo diz: “quem quiser, venha”. Neste aspecto podemos dizer que Cristo morreu por todos, deu-Se a Si mesmo como resgate por todos; um sacrifício disponível para o pecado, para quem quer que venha.

Essas são as grandes verdades a serem testificadas no devido tempo – a graça de Deus proclamando perdão e salvação a todos no terreno da obra de Cristo, que se deu a Si mesmo como resgate por todos. Quando Cristo ascendeu para a glória, e o Espírito Santo desceu à terra para habitar no meio dos crentes, assim formando-os a Casa de Deus, o tempo devido veio. Daquela Casa o testemunho devia fluir, o Apóstolo sendo usado por Deus para pregar a graça e assim abrir a porta da fé aos Gentios (Atos 14:27). Ele pode então falar de si mesmo como um pregador, um apóstolo, e um mestre dos Gentios na fé e na verdade.

(c) A conduta adequada para os  homens e mulheres que formam a Casa

(vs.8-15) Vimos na parte inicial do capítulo que a casa de Deus é o lugar de oração “para todos os homens” (v.1); o testemunho da disposição de Deus em graça para com “todos os homens” (v.4); e o testemunho de quem deu-se a Si mesmo como resgate “por todos” (v.6).

Se tal é o grande propósito da Casa de Deus, segue-se que nada deve ser permitido na Casa de Deus que arruíne este testemunho tanto da parte dos homens como das mulheres que formam a Casa. Então o Apóstolo passa a dar instruções detalhadas sobre o comportamento de cada classe. Este testemunho da graça de Deus não contempla um número de crentes, interessados em um testemunho particular, unindo-se para um serviço. Não é um bando de evangelistas entregando-se ao trabalho do evangelho ou serviço missionário. Ele apresenta todos os santos partilhando de um interesse comum no testemunho que flui da Casa de Deus.

(v.8) Em primeiro lugar, o Apóstolo fala dos homens em contraste com as mulheres. Os homens na Casa de Deus devem ser marcados pela oração. O Apóstolo está falando de oração pública e em tais ocasiões, a atribuição para orar é restrita aos homens. Além disso, a instrução não contém nenhum pensamento de uma classe oficial dirigindo a oração. Orar em público não está limitado aos anciãos, ou a homens com dom, porque orar nunca é tratado na Escritura como uma questão de dom. São os homens quem oram e a única restrição é que uma condição moral correta deve ser mantida. Aqueles que dirigem oração em público devem ser marcados pela santidade e suas orações devem ser sem ira nem contenda. O homem que está consciente de um mal não julgado em sua vida, não está em condições de orar. Além disso, a oração é para ser sem ira. Esta é uma exortação que condena totalmente o uso da oração para fazer ataques velados a outros. Por trás dessas orações sempre há ira ou malícia. Além disso, a oração é para ser em simplicidade da fé e não com um vão discurso humano.

(v.9) As mulheres devem ser marcadas por “comportamento e vestido decentes”. Esta tradução claramente indica que não somente no vestir, mas no seu comportamento em geral as mulheres devem ser marcadas pela modéstia que evita toda impropriedade; e “discrição” que faz com que cuide nas suas palavras e maneiras. Elas devem se guardar de usar o cabelo que Deus deu para glória da mulher, como uma expressão da vaidade natural do coração humano. As mulheres não devem procurar chamar atenção sobre si mesmas, ataviando-se com “ouro ou pérolas ou vestidos dispendiosos”.  Novamente, as mulheres fazem bem ao se lembrar de que devem obedecer a essa passagem da Escritura e não perder esse espírito por se apegar a algo insignificante, desse modo atraindo atenção sobre si mesmas.

A mulher professando o temor de Deus será marcada não pela simulação de superior espiritualidade, mas por “boas obras”. Seu lugar no Cristianismo é gracioso e bonito: é encontrado naquelas “boas obras”, muitas das quais podem somente ser feitas por uma mulher.

Vemos nos evangelhos como as mulheres ministraram a Cristo com aquilo que possuíam (Lc. 8:3). Maria fez uma boa obra ao Senhor quando ungiu Sua cabeça com o precioso unguento (Mt. 26:7-10). Dorcas fez uma boa obra quando fez roupas aos pobres (Atos 9:39). Maria, a mãe de João Marcos abriu sua casa para muitos se reunirem em oração (Atos 12:12). Lídia, a quem o Senhor abriu o coração, fez uma boa obra quando abriu sua casa aos servos do Senhor (Atos 16:14-15). Priscila fez uma boa obra quando, com seu marido, ajudou Apolo a conhecer “mais precisamente o caminho de Deus” (Atos 18:26). Febe, de Cencréia, foi “ajudadora de muitos”.  Outras partes da Escritura nos relatam que mulheres piedosas podem lavar os pés dos santos, aliviar o aflito, educar crianças e guiar a casa. Aqui lemos que em público a mulher deve aprender em silêncio. Ela não deve usurpar a autoridade sobre o homem.

O Apóstolo dá duas razões para a sujeição da mulher ao homem. Em primeiro, Adão tem lugar proeminente, visto que foi formado primeiro, depois Eva. A segunda razão é que Adão não foi enganado; a mulher foi. Num certo sentido, Adão foi pior que a mulher porque pecou conscientemente. Apesar disso, a verdade reclamada pelo Apóstolo é que a mulher mostrou sua fraqueza naquilo que ela foi enganada. Adão realmente deveria ter mantido sua autoridade e levado a mulher em obediência. Ela, na fraqueza, foi enganada, usurpando o lugar da autoridade e levou o homem à desobediência. A mulher cristã reconhece isso e é cuidadosa em manter o lugar de sujeição e silêncio.

(v.15) Eva sofreu por sua transgressão, mas a mulher Cristã encontrará misericórdia de Deus abundando sobre o juízo governamental, se o homem casado e a mulher continuam em fé e amor e santidade, com discrição. Como vimos antes, a continuidade na sã doutrina é largamente dependente de uma correta condição moral (1:5-6); assim vemos agora que misericórdia temporal está conectada com um estado espiritual correto.

(d) A supervisão na Casa de Deus (3:1-13)

(v.1) O Apóstolo falou da posição relativa dos homens e mulheres e a conduta adequada a eles na Casa de Deus. Isto prepara o caminho para a instrução quanto à vigilância na Igreja de Deus. O Apóstolo diz, “Se alguém deseja exercer vigilância, deseja um bom trabalho” (N.Tn.).

No discurso do Apóstolo aos anciãos de Éfeso, três coisas são trazidas diante de nós caracterizando a supervisão. Primeiro, os bispos que supervisionam devem ser vigilantes em relação a si mesmos e a todo o rebanho. Eles devem buscar que seu próprio caminhar e o caminhar do povo de Deus, possam ser dignos do Senhor. Segundo, eles têm de “alimentar a Igreja de Deus”. Eles pensam, não apenas no andar prático do povo de Deus, mas devem buscar o bem-estar das suas almas, para que possam entrar em seus privilégios cristãos e fazer progressos da alma na verdade. Terceiro, eles devem “zelar” pelo rebanho para que ele possa ser preservado dos ataques do inimigo de fora, assim como das corrupções que possam surgir dentro do  círculo cristão por meio de homens perversos que desviam almas do Senhor para si mesmos (Atos 20:28-31).

Tal era o trabalho da supervisão, e o Apóstolo fala disso como “um bom trabalho”. Há o testemunho da graça de Deus que deve fluir da Casa de Deus, e o Apóstolo já havia falado desse “bom e aceitável diante de Deus”. Existe também o cuidado para com aqueles que compõem a Casa de Deus, que seu andar deve estar adequado à Casa, e este cuidado para com as  almas é também “um bom trabalho”.

É importante lembrar que o Apóstolo não está falando de “dons”, mas de ofício local para o cuidado da Assembleia. A cristandade tem confundido dons com ofícios ou cargos. Na Escritura eles são bem distintos. Os dons são dados pelo Cabeça que ascendeu e são “postos” na Igreja (Ef.4:8-11; 1 Co.12:28). O exercício do dom não pode então ser limitado à assembleia local. O ofício de bispo que supervisiona é puramente local.

Além disso, não há nada nas instruções para ordenação de indivíduos para esses ofícios. Timóteo e Tito podem ter sido autorizados pelo Apóstolo para ordenar (ou estabelecer) anciãos (Tt.1:5), mas não há instruções para que anciãos indiquem anciãos ou a Assembleia para escolher anciãos.

O fato de que esses servos foram autorizados pelo Apóstolo para estabelecer anciãos prova claramente que, nos dias do Apóstolo havia Assembleias nas quais não havia bispos supervisores apontados. Eles não tinham anciãos apontados por ausência de autoridade apostólica (direta ou indireta) para apontá-los. É evidente então, pela Escritura, que não pode haver anciãos oficialmente indicados exceto por um apóstolo ou seus delegados. Parece então que para o homem apontar anciãos ou ordenar ministros é agir sem a permissão da Escritura.

Isso não implica que o trabalho de bispo que supervisiona não possa ser feito, ou que não há aqueles aptos para o trabalho em dias de ruína. O trabalho de bispo que supervisiona nunca foi tão necessário quanto hoje, e aqueles que estão, conforme a Escritura, qualificados para o trabalho podem em simplicidade servir ao povo do Senhor em sua própria localidade; e é bom para nós reconhecermos o tal, tendo sempre em mente a força exata das palavras do Apóstolo quando diz, “Se alguém deseja o episcopado, deseja um bom trabalho”. O apóstolo não fala de um homem desejando “ofício” a fim de possuir uma posição ou exercer autoridade, mas do desejo de exercer este “bom trabalho”. A carne gosta de ofício, e posição, e autoridade, mas isso evitará “trabalho”.  Quando isso é visto, temos de admitir que há poucos que têm o desejo contemplado pelo Apóstolo.

(vs.2,3) As qualidades que deveriam marcar esses tais são claramente colocadas diante de nós; e como alguém disse, “As instruções mesmo para anciãos e diáconos não são, por assim dizer, meramente para seu próprio interesse; eles nos mostram o caráter que Deus valoriza e procura em Seu povo.” (F.W.G).

O caráter moral do ancião deve estar acima de reprovação. Ele deve ser marido de uma esposa, uma qualificação que teria uma aplicação especial àqueles emergindo do paganismo com sua poligamia. Um homem convertido, embora não fosse rejeitado por ter mais de uma esposa, não estaria adequado para supervisionar. Além disso, um tal tinha de ser sóbrio em julgamento, discreto em suas palavras, decoroso no comportamento, hospitaleiro. Ele deveria ser apto a ensinar, não necessariamente implicando que ele teria dom de mestre, mas que ele tinha aptidão para ajudar outros em seus exercícios espirituais. Ele não deveria ser uma pessoa dada ao excesso de vinho ou violento; ao contrário, ele deveria ser manso, evitando contendas e livre de cobiça.

(vs.4,5) Além disso, ele deve ser aquele que governa bem a sua casa, tendo seus filhos em sujeição, exortações que claramente indica que o bispo que supervisiona deveria ser um ancião, que não apenas é casado e possui um lar, mas que também tem filhos.

(v.6) Ele não deveria ser um neófito. Um jovem cristão pode ser usado pelo Senhor para pregar a outros assim que se converte, mas para tal tomar o lugar de um bispo que supervisiona seria obviamente errado, e provavelmente o levaria a cair na condenação do diabo. O erro do diabo, alguém verdadeiramente disse, que “ele exaltou-se a si mesmo com o pensamento de sua própria importância” (J.N.D.).

(v.7) Finalmente, o bispo que supervisiona deve ter um bom testemunho diante dos de fora, de outro modo, ele vai cair em reprovação e no laço do diabo. O laço do inimigo é apanhar o crente numa armadilha em conduta questionável diante do mundo, assim ele não pode mais tratar entre os santos com uma conduta questionável.

(v.8) O Apóstolo dá mais adiante as qualificações necessárias aos diáconos. O diácono é um ministro, ou aquele que serve. De Atos 6 aprendemos que este trabalho especial é descrito como “servindo às mesas” e como conexão mostra que isto refere-se a satisfazer as necessidades corporais e temporais da assembleia, em contraste com o trabalho do bispo que supervisiona que é mais especialmente concernente em atender às necessidades espirituais. Apesar disso, não deixa de ser necessário que o diácono tenha qualificações espirituais. Aqueles escolhidos para o trabalho de diáconos na Igreja primitiva em Jerusalém tinham de ser “homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria” (Atos 6:3). Aqui aprendemos que, assim como os bispos que supervisionam, eles tinham de ser sérios, não de duas palavras, não dados ao excesso de vinho ou à cobiça.

(v.9) Além disso, eles tinham de ser marcados por “guardar o mistério da fé em uma consciência pura”. Guardar uma correta doutrina não é suficiente. Ortodoxia sem uma pura consciência indica quão pouco a verdade tem poder sobre quem a possui, portanto, quão impotente tal seria para influenciar outros.

(v.10) Além disso, os diáconos devem ser aqueles que foram testados e provados pela experiência para serem irrepreensíveis em sua própria conduta e então capazes de lidar com questões que devido à necessidade, viriam diante deles no seu serviço.

(vs.11,12) Suas esposas também tinham de ser sérias, não difamadoras e fiéis em todas as coisas. O caráter delas é especialmente referenciado na medida em que o serviço dos diáconos, tendo em haver com necessidades temporais, pudesse dar ocasião para as esposas cometerem maldades, a menos que fossem “fiéis em todas as coisas”. Assim como os bispos que supervisionam, os diáconos tinham de ser marido de uma só esposa, governando bem seus filhos e suas casas. Novamente, estas exortações implicam que o diácono não é um homem jovem, mas casado e tem filhos, e assim um homem com experiência.

(v.13) No caso pode-se pensar que o ofício do diácono era inferior ao do bispo que supervisiona, mas o Apóstolo especialmente declara que aqueles que usam o ofício de diácono, obterão para si mesmos uma boa posição, e muita ousadia na fé a qual é em Cristo Jesus; a verdade, assim como é frequentemente apontada, notavelmente ilustrada na história de Estevão (Atos 6:1-5; 8-15).

(e) O Mistério da Piedade (vs. 14-16)

(vs.14,15) O apóstolo encerra esta parte de sua Epístola, declarando definitivamente que a razão para escrever “essas coisas” é que Timóteo pudesse saber como alguém deve se comportar na Casa de Deus.

É-nos dito que a Casa de Deus é “a Assembleia do Deus vivo”. Não é mais um templo feito de pedras, como nos dias do Antigo Testamento, mas um grupo de pedras vivas – crentes. É formada por todos os crentes vivendo na terra em qualquer momento. Nenhuma Assembleia local é jamais chamada de A Casa de Deus.

Além disso, é a Assembleia do Deus vivo. O Deus que habita no meio do Seu povo não é como os ídolos mortos que os homens adoram que não podem ver nem ouvir. Que nosso Deus é vivo é uma verdade abençoada, de solene importância, mas podemos esquecer facilmente. Mais tarde o Apóstolo pode dizer-nos que nós podemos ”ser afligidos e sofrer reprovação, porque esperamos no Deus vivo” (4:10). O Deus vivo é um Deus que se deleita em cuidar e abençoar Seu povo; contudo, se a santidade que forma a Sua casa não é mantida, Deus pode fazer manifesto que Ele é o Deus vivo em tratamento governamental solene como com Ananias e Safira, que experimentaram a verdade das palavras “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.¨(Hb. 10:31).

Além disso, aprendemos que a Casa de Deus é a coluna e o fundamento da verdade. A “coluna” apresenta a ideia do testemunho; o “fundamento” é o que o suporta. Não foi dito que a Casa de Deus seja a verdade, mas a “coluna” ou testemunho da verdade. Cristo na terra foi “a verdade” (Jo. 14:6); e novamente lemos, “Tua palavra é a verdade” (Jo. 17:17). Apesar de que a Assembleia possa ter falhado muito em suas responsabilidades, o fato é que, como estabelecida por Deus na terra, é o testemunho e suporte da verdade. Deus não tem outro testemunho na terra. Em dias de ruína, podem ser uns poucos fracos que manterão a verdade, enquanto a grande massa professante, falhando em ser testemunho, será vomitada da boca de Cristo.

É importante lembrar que não é dito que é para a Assembleia ensinar a verdade, mas ser testemunha da verdade que já se encontra na Palavra de Deus. Nem pode a Assembleia reclamar autoridade para decidir o que é verdade. A palavra é a verdade e carrega sua própria autoridade.

(v.16) Como a Assembleia é a Casa de Deus – do Deus vivo – e a testemunha e fundamento da verdade, como é importante que saibamos como nos comportar na Casa de Deus. Em vista de um comportamento piedoso o Apóstolo diz “o mistério da piedade” ou o segredo do comportamento correto. Alguém escreveu sobre essa passagem: “Isto é frequentemente citado e interpretado como se falasse do mistério da divindade, ou o mistério da Pessoa de Cristo; mas é o segredo da piedade, ou o segredo pelo qual toda a real piedade é produzida – a fonte divina de tudo o que se pode chamar de piedade no homem” (J.N.D). Este mistério da piedade é o que é conhecido por piedade, mas não manifestado ainda ao mundo. O segredo da piedade está no conhecimento de Deus manifestado através e na Pessoa de Cristo. Assim nesta maravilhosa passagem temos Cristo apresentado, fazendo Deus conhecido aos homens e anjos. Em Cristo, Deus foi manifestado em carne. A santidade absoluta de Cristo foi vista em que Ele foi justificado no Espírito. Nós somos justificados na morte de Cristo: Ele foi selado e ungido completamente separado da morte – a prova de Sua santidade que lhe é própria.  Então, em Cristo, como Homem, Deus foi visto pelos anjos. Em Cristo, Deus foi conhecido e crido no mundo. Finalmente, o coração de Deus é conhecido pela presente posição de Cristo na glória.

Tudo isso é dito como “mistério da piedade”, porque essas coisas não são conhecidas por um incrédulo. Tal, na verdade, pode apreciar externamente a conduta que flui da piedade; mas o incrédulo não pode saber a fonte secreta da piedade. Esse segredo é conhecido somente pelos piedosos; e o segredo está no conhecimento de Deus; e o conhecimento de Deus foi revelado a eles em Cristo.

Por Hamilton Smith

Tradução: Rosimeri F. Martins (Curitiba), revisão Batista (Limeira).
Texto original: http://www.stempublishing.com/authors/smith/1TIMOTHY.html