terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os Limites da Disciplina - S. Ridout.

Por “disciplina” queremos dizer o exercício geral de cuidado no governo da casa de Deus, com o qual Ele se comprometeu com seu povo. Isso inclui então as várias formas nas quais esse cuidado se manifesta, desde a mais simples forma de interesse e aconselhamento dos irmãos, a mais pública correção e reprovação na assembleia, assim como a final, algumas vezes necessária, exclusão da comunhão dos santos.  Para melhor compreensão do que foi dito, reuniremos os tópicos em diferentes títulos.

O objeto do presente artigo não é tanto discutir a questão da disciplina em geral, mas sim verificar os limites das escrituras ao que é feito.

1. Os cuidados gerais com os irmãos

Quando nosso Senhor restaurou Pedro, Sua ovelha errante, o Senhor, por assim dizer, transferiu a expressão da devoção de Pedro por Ele, para amar e cuidar dos Seus cordeiros e ovelhas (Jo. 21:15-17). Quando o bom Samaritano encontrou e ministrou ao homem que foi encontrado entre ladrões, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. Salvação é o abençoado início de um trabalho a ser realizado até sua culminação na volta do Senhor. Este trabalho inclui instrução, cuidado e correção no poder do Espírito Santo, ministrado por Ele por meio de vários membros do corpo de Cristo: “mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros.” (1 Co.12:25).

Podemos dizer que o exercício essencial deste cuidado está na administração de alimentos adequados, sugerido nas palavras do nosso Senhor (Jo. 21:15-17)1, “alimenta meus cordeiros”.  Esses cuidados seguem adiante por meio da proteção do amor sugerida nas palavras, “apascenta as minhas ovelhas”; e para que isto fosse entendido como o único exercício necessário para o bem estar das ovelhas, nosso Senhor retorna, em Sua última resposta a Pedro, à simplicidade da primeira resposta “alimenta meus cordeiros”.

Nota da tradutora - Jo. 21:15-17 (1): na versão Darby diz:  “alimenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas e novamente apascenta minhas ovelhas”, diferentemente da versão JFA que diz “apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas e novamente apascenta minhas ovelhas”.

Alimentá-las naturalmente é a primeira coisa a fazer. Quando uma alma passou da morte para a vida o primeiro cuidado é ver que ela é fortalecida pelo “leite racional, não falsificado” (1 Pe.2.2). Assim o crescimento está assegurado. Que agradável privilégio é ser permitido exercitar esse cuidado para os amados cordeiros e ovelhas do rebanho de Cristo!  Não podemos cobiçar privilégio mais alto do que ministrar “a tempo a ração” (Lc. 12:42) à casa de Deus - ministério em que a parte mais importante é a obra e a pessoa de nosso Senhor Jesus. É um serviço no qual todos devem participar, enquanto que aqueles que têm dom especial para ensino podem regozijar-se em cumprir seu ministério.

Nas assembleias do povo de Deus precisamos sempre lembrar que este cuidado é a primeira necessidade. Sem isso é quase impossível exercitar a disciplina, mesmo nas suas formas mais simples. Se os santos não são nutridos adequadamente, eles se tornam espiritualmente anêmicos e hipersensíveis à mais branda forma de admoestação ou repreensão pelos irmãos. Eles estão muito fracos para saber da bem aventurança do serviço de João 13 – “vós deveis também lavar os pés uns aos outros”.  Vemos então que há uma completa e constante fonte de suprimento de puro leite da Palavra, no ministério adequado para uma variedade de necessidades dos santos, assim eles são formados na sua mais santa fé e nutridos nas palavras da fé, assim crescendo pelo verdadeiro conhecimento de Deus.

Passamos, agora, da discussão deste item para outro que está em nossos corações,

2. O exercício dos cuidados fraternais e a vigilância

O jovem crente é exposto a perigos especiais em três direções: da carne, do mundo e de Satanás, que está constantemente procurando fazer uso da carne e do mundo para seduzir a alma da simplicidade de Cristo. Os verdadeiros instintos de amor nos levarão a tratar e nos preocupar com os cordeiros do rebanho. De fato, isto nos tem sido confiado e podemos nos perguntar qual se a razão de mais pessoas não serem acrescentadas aos grupos dos santos reunidos ao nome do Senhor; possa ser a falta do exercício no amor no cuidado para com eles.

O primeiro elemento deste cuidado é sugerido no pensamento da vigilância: “porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas” (Hb. 13:17). Cada pastor cuida das suas ovelhas.  Não agir desse modo deixaria o caminho aberto para o ataque do lobo. O cuidado deve ser tomado em coisas simples, como, por exemplo, comparecimento regular dos santos às reuniões, suas companhias, e outras questões similares. Percebemos de imediato que estamos pisando num terreno delicado que sugere uma limitação com esse tipo de cuidado.

Embora vigilantes, não devemos ser desconfiados. Uma gentil  e amorosa vigilância está longe de um inquieto, questionador e intruso espírito. Não devemos suspeitar da existência do mal sem base adequada e mesmo na relação fraternal aqui sugerida, devemos nos resguardar de imputação por motivos errados ou suspeitas daquilo que não foi manifestado.

Para ser explícito, se um jovem santo está frequentemente ausente das reuniões, claramente não é sábio ou correto suspeitar que a causa seja falta de interesse. Em vez disso, deixe a questão ser abordada em espírito de confiança, no amor que não suspeita mal. Assim, em vez de fazer perguntas impertinentes, a forma amorosa seria manter contato com a pessoa cujo caminhar nos preocupa e procurar ganhar sua confiança.  Isso será suficiente para sugerir em qual espírito toda tipo de cuidado dos irmãos deveria ser exercitada. Não nos debruçaremos mais sobre isso, mas apenas relembramos nosso leitor que estamos propensos a balançar de um extremo a outro – indiferença por um lado, e por outro lado, intrometido naquilo que não temos direito, a menos que primeiro sejamos procurados por aquele que busca ajuda.

3. O lavar os pés uns aos outros

Isto nos leva a falar do mais positivo esforço na correção da manifestação de falhas ou fraquezas, sugerido na figura de João 13. “Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele” (Lv.19:17), foi a ordem da lei. O que aqui é ordenado, sob a graça, será o esforço para o exercício de um amor verdadeiro. Ai de nós, tão frequentemente ocupados com o mal nos outros sem exercício pessoal; falando deles em vez de falando a eles; tão distante de estar aportando alguma ajuda, alienando-os, fazendo-os ouvir falar deles pelas costas.

A simples coragem do amor irá para o irmão que está em falta, primeiro pelos sussurros da mente do Senhor em oração por ele e nós mesmos.  Depois, no espírito de Gálatas 6 “se um homem chegar a ser surpreendido em algum delito, vós que sois espirituais corrigi o tal com espírito de mansidão”.

A confiança do irmão terá sido ganha; ele não vai pensar que queríamos humilhá-lo ou exaltar-nos.  Nós o traremos  para a simples palavra de Deus, aplicada ao problema em questão – do seu andar, companhias, ou o que quer que seja. Nosso único objetivo é a recuperação dele; e em toda a graça e ânsia de um coração em comunhão com Cristo procuraremos pastorear Sua amada ovelha. Realmente, esta é uma abençoada e a mais delicada obra, requerendo nada menos que a graça de Nosso Senhor para um adequado cumprimento. Isto é o que Ele sugere nas palavras “Ora, se eu, /senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros” Jo 13.14.

Há também aqui limites manifestos para o exercício apropriado dessa responsabilidade. Como dito antes, não devemos suspeitar indevidamente nem desnecessariamente acusar nosso irmão que falhou, que não tenha sido manifestado como tal. Por exemplo, amizades  e companhias prejudiciais podem ter sido iniciadas. Não devemos ir além do que sabemos do fato. Um irmão jovem pode ter sido visto na companhia de jovens ímpios; e nós podemos ficar seriamente preocupados com isso. Nós não seríamos justificados, no entanto, em acusar o irmão de ter ido com eles ao teatro ou coisas do tipo. O limite é claro. Tratamos somente com o que sabemos, apontando os perigos que possam estar envolvidos, e ainda cuidando para não ir além dos fatos como os conhecemos.

Muitas vezes, onde uma alma é assim tratada, com amor fraternal e afetuosa confiança, enquanto não se fala da extensão do seu declínio, o coração será examinado e o julgamento próprio garantido; quando, porém damos voz às nossas suspeitas e o acusamos daquilo que ele realmente não é culpado, ele se ressentiria e poderia usar isso como uma desculpa para continuar no caminho errado.

4. Apartar-se – tomar distâncias

Passamos agora do exercício do cuidado pessoal e vigilânica dos irmãos para o que é propriamente a disciplina pela assembleia. Enquanto o mal for de uma natureza que haja esperança de recuperação, e o nome do Senhor não está comprometido, nossos esforços particulares para restaurar um irmão errante devem continuar.  Entretanto, quando não nos sentimos mais capazes de falar a ele, nós temos de demonstrar nossa preocupação nos  afastando dele. “Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão”. (2 Ts.3:14-15).  Às vezes um pequeno silêncio de desatenção, do qual ninguém, mas apenas nosso irmão vai perceber, pode ser mais efetivo do que uma admoestação verbal persistente, a qual ele se recusa a ouvir, especialmente quando tal afastamento é acompanhado por sinais de manifesta tristeza, juntamente com manifestação de profundo amor de acordo com a ocasião. Nosso abençoado Senhor deu as melhores porções escolhidas para o prato do pobre coitado que ele sabia estava planejando traí-lo. Certamente, se tivesse havido uma partícula de ternura no coração duro de Judas, teria rendido a tal amor. 

Onde alguém foi constrangido a tomar tal atitude de desatenção para com seu irmão, grande cuidado deve ser tomado para que isso seja no caráter particular. Nada que fira o orgulho, especialmente naquele que já está com sua alma afastada de Deus, exposto à vergonha pública.

5. A disciplina da Igreja

Mas o tempo vem quando o mal é de tal natureza que o próprio amor e a fidelidade ao Senhor são forçados a chamar a atenção dos santos para aquele que não responde mais ao tratamente pessoal.  “Dize-o à Igreja” (Mt.18:17). A conduta do irmão está agora diante da assembleia, que é, além de tudo, responsável pelo exercício das várias etapas que a disciplina requer. Pode haver necessidade evidente de correção. A conduta do irmão é manifestamente errada e mesmo aqui há limites os quais a Escritura evidentemente impõe.  “Quarenta açoites lhe fará dar, não mais; para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos.” (Dt. 25:3).

Temos aqui um princípio que mesmo sob a lei, evitava uma severidade indevida. Quanto mais deveriam aqueles que conhecem a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, temperar a correção com misericórdia!

A disciplina na Assembleia pode ser dividida em três classes gerais: admoestação privada, repreensão pública e a exclusão.

Todo o espírito da Escritura serve para nos guiar, e não somente passagens bíblicas isoladas. Se um indíviduo tem de dizer a um irmão a sua falta “repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão” (Mt. 18:15), o mesmo espírito deve caracterizar a assembleia em seu agir. Isto está de fato implícito nas palavras da passagem já mencionada: “... se também não escutar a igreja” (vs.17). Neste ponto, a atitude da assembleia é a de Gálatas 6:1 “...vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão”. Igualmente o apóstolo escreve: “Rogamo-vos, também, irmãos, que admoesteis os desordeiros...” (1 Ts.5:14).

6. A admoestação reservada

A admoestação reservada está tão proximamente ligada com o trato pessoal que há pouco a ser dito. A assembleia pode estar convencida que um irmão deu causa a isso, então encarrega um ou dois irmãos, sérios, homens piedosos de peso, para ir ao malfeitor, de forma reservada, para admoestá-lo por parte da assembleia. Eles devem adverti-lo de que a conduta de um crente está ligada ao nome do Senhor e ao seu testemunho; que não podem ser identificados de forma nenhuma com isto e rogam que ele julgue a si mesmo, para apartar-se do mal. Os limites aqui são óbvios. Não funcionaria, por exemplo, administrar esta repreensão em público. Isso soaria como pressa e desejo de livrar-se de um assunto desagradável. Ao contrário, cuidado especial deve ser tomado para que nada mais seja feito além da admoestação.

Podemos dizer que talvez alguns na assembleia pudessem pensar que algo mais é necessário, além do trato pessoal em caráter reservado. Eles seriam a favor de uma repreensão pública, ou de fato, insistiriam que aquela pessoa deveria ser colocada para fora de uma vez. Deixe aqueles que são tão inclinados a isso lembrarem-se de que não podem ir além da consciência da assembleia. Muito dano tem sido causado pela insistência de uns poucos por uma disciplina extrema, quando os demais estão convencidos que uma disciplina menos severa deveria ter sido adotada. Um bom cirurgião anseia por poupar um membro. Amputação é seu último recurso.

7. A admoestação pública

Vamos supor que a admoestação reservada não obteve o resultado esperado. A repreensão pública é o próximo passo indicado. O mal cresceu de tal forma que ninguém pode fechar seus olhos a ele. Há muitas indicações de que vai piorar. O amor agora indica a necessidade de uma ação radical. Se um irmão tem de ser poupado da vergonha e da humilhação de ficar muito tempo fora da comunhão, ele deve ser confrontado com seu erro. Uma admoestação pública será feita na presença de toda a assembleia. “Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos, para que também os outros tenham temor” (1 Tm. 5:20). Os santos reunidos ao nome do Senhor, sentindo a santidade de Sua presença, também tocados pela Sua graça, são obrigados a repreender o que cometeu o mal. Naturalmente pensamos que aquele que vai administrar a repreensão deve ser conhecido pela sua delicadeza e docilidade (Fl. 3:18). Limitações naturalmente sugerem-se aqui. Não deve haver demonstração de ira ou ressentimento, nem manifestação de espírito farisaico ou de justiça própria, A tristeza certamente encherá aqueles que se derem conta que não são eles, mas o Senhor deles que foi desonrado na casa de Seus amigos.

Grande cuidado deve ser tomado quando for descrito o caminho do mal desde o seu início, sem exageros, nada que não haja sido completamente baseado em fatos, que devem ser apresentados de tal forma que aquele que cometeu o mal, em vez de mostrar autodefesa, possa somente acenar em concordância com a justiça da admoestação administrada, sentindo que ela está antes abaixo, e não acima do que ele merecia.

Mencionamos em relação a isso, com alguma apreensão, uma prática que tem sido adotada entre alguns do povo de Deus, familiarmente conhecida, que é exigir que a pessoa se “sente atrás”.  Alguns, de fato, assumiram determinar isso sem mesmo consultar a assembleia, dizendo que eles não partiriam o pão se tal pessoa assim não o fizesse. Isto é realmente tirar a disciplina das mãos da assembleia e administrá-la por uma pessoa. O resultado só pode ser o de deixar a assembleia aberta à acusação de ser dirigida por poucos, e talvez efetivamente feche a porta para o que de outra forma teria sido o início da recuperação.

À medida que o caso cresce com menos esperança, nosso cuidado deveria aumentar. Não vamos dizer que não poderá haver casos em que a assembleia sinta que um irmão deva ser “calado”; mas tais casos são raros e são indicados quando há grave suspeita de que o mal seja pior do que é sabido, e o qual é justo ser trazido à luz. Deste modo, um irmão que foi reportado estar em curso de pecado pode apresentar-se numa reunião para partir o pão.  A assembleia poderia requerer ao tal abster-se de fazê-lo até que tenha havido tempo de examinar o caso. Não precisamos dizer que isso precisa ser feito com toda a prontidão. Mas desaprovamos fazer do ato de sentar-se atrás um grau de disciplina.

8. A exclusão da comunhão

Chegamos agora ao ato final de tirar de comunhão e pedimos ao leitor que observe quantos passos precederam esse ato final. Tememos que muitos de nós tenhamos errado em relação a isso.  Temos negligenciado tão completamente os passos preliminares do cuidado fraternal e vigilância que o pecado público pode ser atribuído pelo menos em parte à nossa negligência, tanto quanto ao que comete o erro. É claro que onde o pecado manifestou-se num caráter tal que não se possa tolerar, como escrito em 1 Coríntios 5, resta apenas um caminho aberto – “Tirai pois dentre vós a esse iníquo”. A razão para tal ato, entretanto, deve ser clara. Não deve haver lugar para suspeita de mera animosidade pessoal, nem a sugestão de que um partido (uma divisão) na assembleia ganhou seu ponto.

O mal para ser tirado deve ser de tal caráter evidente que não levante suspeita nas mentes daqueles que dele ouvirem, de que severidade indevida foi usada. Podemos estar certos de que se a consciência comum dos santos falha em reconhecer uma conduta como imoral, aqueles que procuram infligir tal disciplina deveriam perguntar a si mesmos se eles não estão errados. De fato, não temos aqui uma daquelas garantias que o amor divino deu, pela qual o povo amado de Deus é apto a receber o aviso e conselho de seus irmãos? Muito mais poderia ser dito sobre este ponto. Acreditamos que não há necessidade de dizer mais nada.

Uma pessoa pecadora que é tirada de comunhão não perde apenas o direito de partir o pão, mas os santos devem separar-se de sua companhia; e ainda, mesmo neste caso há certos limites para a disciplina que sugerimos. Como quem pecou é membro de um lar cristão, um marido ou irmão, seria um erro aplicar literalmente as palavras “com o tal nem ainda comais” (1 Co. 5:11). Uma esposa não deveria recusar sentar-se à mesa com seu marido que está em disciplina. Ela manifesta a sua recusa de comunhão de outras maneiras. Seria uma mera perseguição insistir em que ela deixasse de cumprir seus afazeres domésticos.

Podemos ainda mencionar que quando uma pessoa foi tirada de comunhão, é bom de vez em quando ir vê-la, na esperança de que Deus esteja trabalhando sua alma; mesmo a exclusão tem a recuperação como objetivo.

Com relação a este assunto acrescentamos algumas palavras quanto ao aspecto coletivo da disciplina. Temos de insistir que a verdade de um só Corpo e o esforço para manter a unidade do Espírito requer que a verdade da disciplina exercida por uma assembleia seja aceita e aplicada por todas as outras assembleias. Falhar em fazer isto seria independência do mais evidente caráter; mas isto só enfatiza a necessidade de que a disciplina deve ser tal como indicamos, com caráter apropriado conforme a Escritura.

Como já dito, se a ação disciplinar foi tão extrema que suscita dúvidas à consciência dos santos de outros lugares, a assembleia local pode questionar se não cometeu um erro. Em tal situação deveria buscar a comunhão com irmãos de outras localidades que sentem alguma inquietude e apresentar seus exercícios e sua ação disciplinar.  Se estivermos conscientes que agimos para o Senhor, podemos estar confiantes que nossos irmãos, nos quais confiamos na integridade espiritual, após conhecerem os fatos, chegarão à mesma conclusão nossa. Também podemos, com a desconfiança em nós mesmos, que vai junto com a real certeza, pedir conselhos complementares e buscar a comunhão daqueles que estão igualmente ligados a nós pelo ato da disciplina.

Ah, quantas divisões do passado resultaram da falha em reconhecer o princípio do que acabamos de falar! Atos extremos de disciplina foram forçados sobre o povo de Deus de tal forma que não lhes foi permitido questionar a justiça de tais atos, mas foram obrigados a concordarem ou então retirar-se da comunhão com a assembleia que exerceu a disciplina.

Não precisamos ser mais específicos aqui, porque, ah, nossos corações estão feridos em pensar nas nossas falhas neste sentido! Deveríamos apenas perguntar, não há mais remédio? Não podemos esperar, em alguma medida pelo menos, reformular  nossos passos; e se cremos que severidade indevida foi usada na ação da disciplina, não deveríamos nós, no temor de Deus e em toda simplicidade, concordar e desfazê-la na medida em que podemos?

Este assunto tão importante foi, em alguma medida, apenas tocado superficialmente. Concluindo, animemo-nos mutuamente a praticá-lo em todos os seus vários detalhes. Que haja um despertar entre os santos, uma verdadeira restauração da graça em nossos corações, a qual, enquanto busca cumprir apropriadamente toda disciplina, cuidadosamente observa os limites que a palavra de Deus coloca em cada estágio; e possa nos guardar dos perigos aqui apontados.

S. Ridout.

Tradução: Rosimeri Fauth Martins, revisão Paulo Martins.
Texto original: http://www.stempublishing.com/authors/S_Ridout/SR_Disciplines_Limits.html

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Princípios Fundamentais sobre os Quais a Igreja é Edificada - C. H. Brown

Atos 2.37-47

Na Palavra de Deus encontramos o pensamento de Deus com referência à igreja de Deus. Lemos em Atos 20 que a igreja é muito querida ao coração de Deus, pois Ele pagou por ela com o sangue do Seu único Filho. Ele zela por essa igreja para que ela possa seguir adiante e permanecer em todos os seus privilégios que lhe foram garantidos na Palavra de Deus pelo Espírito Santo enviado do céu.

A igreja de Deus era algo novo e distinto naqueles dias de Atos. Ela nunca havia sido o objeto de profecia direta, apesar de poder ser encontrada escondida em tipos e sombras desde o primeiro tipo mais importante que aparece na Bíblia, até a vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Mas quanto à sua existência real, a igreja de Deus nunca existiu até aquele dia memorável quando os 120 foram reunidos no cenáculo e o Espírito de Deus desceu e os batizou em um único corpo. A Cabeça ascendida no céu assumiu a responsabilidade de equipar Sua igreja com todos os dons necessários. Ele ainda vive, Ele ainda está na glória, Ele ainda cuida de Sua igreja, Ele ainda concede dons, e Ele ainda cuida de cada indivíduo que faz parte deste corpo.

No Novo Testamento, principalmente em Atos e nas epístolas, todos os detalhes foram providenciados especialmente para nós, principalmente os princípios fundamentais sobre os quais a igreja foi edificada, e pelos quais – e para os quais – ela foi formada.

Quem Eram Eles?

Veja o versículo 42 do capítulo 2: "E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações". Diz que eles "perseveravam". Quem eram eles? O novo grupo, aquela companhia de pessoas batizadas com o Espírito de Deus, e batizadas com água para que se identificassem com essa nova posição aqui neste mundo.

Portanto aqui vemos uma companhia de pessoas batizadas; eles haviam recebido a Palavra e foram batizados. Naquele dia em particular, quando Pedro fez sua pregação, três mil almas foram acrescentadas. "E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações." Qualquer grupo de cristãos que rejeite qualquer uma destas quatro coisas não está agindo em conformidade com o plano que Deus tem em mente. Lembre-se: é a igreja dEle, e Ele é Quem decide o caminho, e tanto eu como você só estaremos obedecendo se estivermos seguindo aquilo que é a Palavra de Deus. Uma das características de um cristão é "perseverar".

A Doutrina dos Apóstolos

Qual destas quatro coisas vem primeiro no versículo 42? A doutrina dos apóstolos. Estamos vivendo numa época de superficialidade de pensamento. As pessoas dizem que a doutrina não faz nenhuma diferença, todavia ela faz toda diferença. A doutrina é algo solene, ela tem a preeminência, e você encontra isso repetidamente na Palavra de Deus.

Abra em 1 Timóteo 1, no final do versículo 10: "...e para o que for contrário à sã doutrina". Acaso Deus não se importa com o que você crê? Na mesma epístola, capítulo 4.13, "Persiste em ler, exortar e ensinar [doutrinar], até que eu vá". Acaso não faz diferença em que você crê? Dê atenção à doutrina. Então, no versículo 16, "Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem". Você quer ser usado para bênção de outros? Então permaneça na sã doutrina, pois vivemos numa época em que precisamos estar atentos quanto à sã doutrina.

Abra agora em 1 Timóteo 6.3,4: "Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe". De nada vale se vangloriar de possuir um dom, de nada vale ostentar nossas talentosas habilidades, se nossa doutrina não se enquadrar na Palavra de Deus. Nada sabemos aparte da vontade revelada de Deus, como a encontramos na Palavra de Deus.

Em 2 Timóteo 1.13 lemos: "Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus". Eu e você não podemos nos permitir fazer experiências com a verdade de Deus. Em 2 João o apóstolo nos alerta: "Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho".

E outra vez, em 2 Timóteo 3.10, "Tu, porém, tens seguido a minha doutrina, modo de viver, intenção, fé, longanimidade, amor, paciência". A doutrina e o modo de viver são duas coisas que andam juntas. O homem irá lhe dizer que não faz nenhuma diferença em que você crê – que o mais importante é o modo de viver. Isto é falso. A doutrina vem primeiro. Você não pode viver certo se não crer certo. Não pense que você pode separar a conduta da doutrina. A única conduta correta que Deus pode contemplar com complacência é a conduta que deseja obedecer à Palavra de Deus revelada. Minha doutrina e minha conduta compõem meu modo de vida.

"Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas" (2 Tm 4.2-4). É aí que estamos; já atingimos este ponto; não suportarão a sã doutrina.

A Comunhão dos Apóstolos

Volte para Atos 2.42, "E perseveravam... na comunhão [dos apóstolos]". Não apenas na doutrina dos apóstolos, mas também na comunhão dos apóstolos. Existem hoje muitas comunhões neste mundo, mas aqui se trata da comunhão dos apóstolos. De que se trata? Trata-se da comunhão que resulta da associação daqueles que guardam a doutrina dos apóstolos. Em outras palavras, se estiver determinado a observar a doutrina dos apóstolos, você fará isto, e se eu também fizer o mesmo, nos encontraremos juntos. Será algo fundamentado e baseado na doutrina dos apóstolos. Vemos isto acontecendo aqui no versículo 44 deste capítulo: "E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum." Não existe nenhum caminho assinalado nas Escrituras para alguém andar sozinho nas coisas de Deus. Não, e não pense que você está agradando o Senhor quando está andando separado de seus irmãos. Sei que são falhos. Eu sou um deles, e sei que sou uma prova para meus irmãos, mas oh, meus irmãos têm sido tão bons para comigo que busco por graça para seguir adiante com eles.

Partir o Pão

Existe agora outro ponto: comunhão e partir o pão. Alguns cristãos parecem sentir que existem dois tipos de cristãos no mundo: aqueles que partem o pão e aqueles que não partem o pão. Nunca encontrei tal coisa em minha Bíblia. A não ser quando nos encontramos sob disciplina, partimos o pão. Evidentemente não esperamos que aqueles que se encontram sob disciplina partam o pão.

Mas não encontro nas Escrituras que exista uma classe de pessoas que partem o pão, enquanto outras não. Não há tal coisa, mas o normal é que parta o pão, se for um filho de Deus. Este era um dos privilégios da nova posição que tinham como cristãos: este sagrado privilégio que é partir o pão. O Senhor pediu que fizessem isto e eles alegremente atenderam ao pedido. Sei que estamos vivendo dias de enorme confusão, e é difícil você encontrar que caminho trilhar. Estou pronto a admitir isto, mas não se trata de uma desculpa para você seguir adiante sem partir o pão. Você é cristão? Você sabe que seus pecados estão perdoados? Ora, então por que é que você não está lembrando o Senhor no partimento do pão? Trata-se de algo solene. Ele nos pediu que fizéssemos isto. Ele não disse: "Se você quiser, faça assim", ou "se você concordar..." Ele disse "fazei isto". Não disse "vá pregar o evangelho"; não disse "vá ser missionário em outro país", mas "fazei isto em memória de Mim".

Eles perseveravam no partimento do pão; não desistiram. Alguns de nós conhecem crentes que partiram o pão por algum tempo e então pararam de lembrar o Senhor. Quando indagados da razão de terem parado, responderam que ficaram ofendidos por uma razão qualquer. Mas nunca encontrei alguém que tivesse sido ofendido pelo Senhor Jesus Cristo, e, todavia foi Ele Quem disse, "Fazei isto em memória de Mim". Por que não podemos ser mais pacientes uns para com os outros? Será que você acha que você particularmente nunca é uma provação para seus irmãos? Será que você não pode encontrar graça suficiente para seguir andando com eles? Você acha que pode se dar por desculpado ao não cumprir o pedido do Senhor só porque alguém feriu seus sentimentos?

Oração

A última coisa que mencionei foi "oração". Ela ocupa um grande lugar nas Escrituras. O Senhor Jesus nos deixou exemplo; Ele era um homem de oração. Quando olhamos para a vida dos apóstolos vemos que também eram homens de oração. Quando Pedro estava na prisão e sua cabeça estava para ser decepada no dia seguinte, os santos de Deus estavam na casa da mãe de João Marcos, de joelhos, para passarem a noite em oração. Não estavam simplesmente repetindo rezas; eles estavam orando fervorosamente. Aquelas orações penetraram na presença de Deus; elas subiram até o trono de Deus, e Deus as ouviu e respondeu de maneira poderosa. Pedro foi gloriosamente libertado. Mas assim que foi libertado e pôde entender o que havia acontecido, seguiu direto para aquele poderoso gerador de sua libertação – aquela pequena reunião de oração em um lar.

Suponha que você estivesse vivendo naquele tempo e soubesse que Pedro estava sendo perseguido e que seria morto. Será que você diria, "Estou cansado hoje; acho que vou ficar em casa hoje à noite. Acho que não vou à reunião de oração"? Então no dia seguinte você escutaria o que aconteceu. Certamente ficaria desapontado; você diria, "Eu gostaria de ter estado ali e orado a Deus por Pedro". Oh, sim, você teria desejado estar naquela reunião de oração. Não despreze a reunião de oração e não a tenha como algo de pouca importância; uma assembleia sem reunião de oração é uma assembleia doente. Graças a Deus hoje é dia de reunião de oração!

Estivemos ocupados com o caminho simples dos santos do Novo Testamento. Será que desejamos, no pouco tempo que nos resta, andar na simplicidade daquele caminho, deixando zelosamente de lado tudo o que seja contrário a ele, que nos faça desviar dele, ou que acrescente alguma coisa a ele? Se estivermos desejosos de seguir por ele, algum dia poderemos ouvir, "Bem está, servo bom e fiel"; não "servo bom e bem sucedido", mas "servo bom e fiel". Que Deus conceda que seja assim.

[C. H. Brown]

Tradução: Cristina Marucci

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

As Duas Testemunhas - Bruce Anstey

Clichê (sem fundamento): Na Grande Tribulação, Moisés e Elias voltarão à Terra e pregarão ao mundo, como duas testemunhas de Deus (Ap.11:3).

Muitos pensavam que, uma vez que o profeta Malaquias disse que Deus iria enviar "Elias, o profeta”, antes do grande e terrível Dia do Senhor" (Ml.4:5), e que ele e Moisés (uma vez que eles estavam juntos no Monte da Transfiguração-Mt.17:3.) retornariam pessoalmente como testemunhas na Terra durante a Grande Tribulação. Esta é uma suposição que resulta da tendência de se dar às profecias um caráter sensacionalista.

O capítulo 11 do livro Apocalipse é interpretado literalmente, ainda que o primeiro versículo desse livro nos ensine que  as profecias nesse caso são “figuras”, significando que elas devem ser entendidas como “símbolos” (Ap.1:1). Se não for assim, poderemos chegar a algumas ideias bastante fantasiosas de como as coisas acontecerão no final dos tempos.

A interpretação ortodoxa da Bíblia indica um cumprimento literal das Escrituras. Isso não significa que toda palavra ou frase encontrada na Bíblia seja literal, mas que o cumprimento dessas coisas será literal.

O Espírito de Deus usa muitas figuras e símbolos na Palavra para simbolizar coisas que são literais. Por exemplo, a Escritura fala de "o sol" não brilhando e "as estrelas" caindo do céu (Mt.24:29). Isso não pode ser entendido literalmente. Se o sol parasse de brilhar, toda a vida na Terra morreria. Além disso, a maioria das estrelas são milhares de vezes maiores do que a Terra; se uma delas fosse cair na Terra ela seria destruída imediatamente.

Essas coisas são, obviamente, simbólicas. Elas têm a finalidade de mostrar que a grande apostasia que o Anticristo trará, resultará no afastamento da verdade e da luz divina(o sol) para bem longe dos homens, e que muitos líderes dentre os homens (as estrelas) irão sucumbir à escuridão espiritual e não mais temerão a Deus. Estas são coisas literais que acontecerão.

Interpretando as "duas testemunhas" simbolicamente, vemos que Deus levantará um testemunho apropriado (indicado com o número 2 nas Escrituras) na terra de Israel, em oposição à malignidade da Besta e do Anticristo. Isso  será uma parte do remanescente judeu que será autorizada por Deus para esse testemunho especial.

F. B. Hole disse: A questão naturalmente surge; devemos entender esses versos como predizendo o levantar-se de dois homens reais; ou Deus levanta e mantém pelo tempo que Lhe convier um suficiente e poderoso testemunho com as características de Elias e Moisés, ou são mesmo os dois?  Estamos inclinados ao segundo ponto de vista especialmente por causa do caráter simbólico de todo o livro.

Pensamos então que eles indicam – não um grande e abundante testemunho; isso seria indicado pelo número 3 e não 2 – mas um testemunho suficiente, divino, na verdade, miraculosamente preservado e  sustentado nesta época."(The Revelation p.247).

W. Scott disse: "Sobre a questão do número 2 de testemunhas, inúmeras hipóteses têm surgido, tal como os dois Testamentos, a Lei e o Evangelho, Huss e Jerome, os Valdenses e os Albigenses, etc.

Outros, demonstrando mais razão e com aparente sanção da Escritura, supõem que Moisés e Elias são as duas testemunhas, citando Ml.4:5 como prova de sua afirmação. A frase desse versículo  “Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo” não implicaria na presença pessoal do grande legislador nas cenas dos últimos dias; enquanto que no versículo 5 parece realmente uma declaração expressa de que o distinguido profeta deve novamente aparecer na Palestina: “Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor”.

Um testemunho completo e adequado é a intenção propositadamente pretendida no número das testemunhas. Parece-nos que um número maior do que dois, é trazido diante de nós nesta solene crise, e que também o versículo 8 supõe um grupo de testemunhas mortas." (The Book of Revelation, p.230).

Essa questão foi submetida ao editor da revista Help and Food: "Pergunta: Por gentileza você poderia explicar o significado das "duas testemunhas" de Ap.11:3?

Resposta: Nós acreditamos que eles são o fiel remanescente judeu que Deus levantará durante a segunda metade da última semana de Daniel - o tempo da Grande Tribulação. O número 2 não é necessariamente literal, mas revela um testemunho adequado, assim como a Lei exigia.... Assim como foi com Moisés e Elias, cujo testemunho foi em circunstâncias semelhantes, ainda que o Rei já estivesse longe, eles estavam em humilhação e sofrimento" (Help and Food, vol.19, p.252).

Tradução: Kleber Castanhar | Revisão: Paulo Martins e Rosimeri Martins
Extraído do livro "UNSOUND DOCTRINAL STATEMENTS & CLICHÉS (Commonly Accepted as Truth) - Bruce Anstey - 46) The Two Whitnesses - Tradução páginas 111 a 113.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A Glorificação dos Corpos dos Crentes - Bruce Anstey

Clichê (sem fundamento): No Arrebatamento, os crentes receberão "novos" corpos.

Isto está sendo dito com frequência - e entendemos o que as pessoas querem dizer - mas se esta afirmação for considerada como dita acima, não está correta segundo a Escritura. Se os santos receberem "novos" corpos quando o Senhor vier, qual seria a necessidade de o Senhor ressuscitar os corpos que os santos tinham quando vivos?

2Co.5:1-2 é usado erroneamente para ensinar que, quando o Senhor vier, Ele trará consigo os santos com novos corpos celestiais. E, naquele momento, Ele fará com que as almas e os espíritos daqueles que morreram entrem em seus novos corpos. Isto pode até aparentemente estar correto, mas estará negando a ressurreição dos corpos dos santos! Implica que os seus espíritos e almas serão ressuscitados, o que não é verdade. São os corpos em que viviam que serão ressuscitados - não seus espíritos e almas (Mt.27:52.). Almas e espíritos não morrem, e portanto, não precisam de ressurreição.

Outros têm especulado no sentido inverso. Eles usam 1Ts.4:14 para nos dizer que quando o Senhor vier, Ele trará as almas e os espíritos dos santos com Ele, e naquele exato momento, Ele ressuscitará os seus corpos incorruptíveis, e suas almas e espíritos retornarão a seus corpos ressuscitados, indo para o céu com o Senhor.

A verdade é que nenhuma dessas ideias está correta. 2Co.5:1-2 não ensina que o Senhor tem novos corpos para os santos com Ele no céu, e que trará com Ele na sua vinda. Esse versículo simplesmente diz que há um eterno e glorificado estado aguardando por nossos corpos, que permitirá habitarmos "nos céus" com Cristo. Também não é em 1Ts.4:14 que diz sobre as almas e espíritos sem os corpos dos santos que acompanharão o Senhor quando Ele vier. Esse versículo está falando dos santos glorificados (em seus espíritos, almas e corpos) vindo com Cristo, na sua aparição; não está se referindo ao Arrebatamento. Os versículos 15-18, que se referem ao Arrebatamento, são parênteses explicando como os santos foram para o céu, para que eles pudessem voltar com o Senhor, na sua aparição.

Para evitar esta confusão de entendimento, a Escritura toma todo o cuidado de nunca dizer que teremos "novos" corpos. Ela diz que os santos receberão corpos "transformados" (Jó.14:14; 1Co.15:51-52; Fp.3:21). A Escritura ensina que os próprios corpos que os santos tiveram em suas vidas serão ressuscitados - mas em uma condição completamente diferente de glorificação (Lc.14:14; Jo.5: 28-29.; 1Co.15: 51-55; 1Ts.4: 15-16, etc.). Paulo disse: "todos nós seremos transformados." (1Co.15:51). Isso inclui os corpos dos santos mortos (“corruptíveis") e também os corpos dos santos vivos (“mortais") (1Co.15: 53-54).

Talvez, os que dizem que vamos receber “novos” corpos, queiram dizer que nossos corpos serão “renovados”, o que seria verdade. Mas não existe isso de os santos receberem um outro corpo, em que a declaração citada no início (Clichê) infelizmente implica.

Tradução: Kleber Castanhar | Revisão: Paulo Martins e Rosimeri Martins
Extraído do livro "UNSOUND DOCTRINAL STATEMENTS & CLICHÉS (Commonly Accepted as Truth) - Bruce Anstey - 43) The Glorification of Believers' Bodies- Tradução páginas 106 a 107.